Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Allen Ginsberg - Para Tia Rose

Dedicado a Rose Ginsberg Gaidemak (1900-1940) – falecida por septicemia –, este poema, redigido em Paris em 1958, configura uma elegia confessional em que se superpõem camadas pessoais, até mesmo íntimas, e políticas – em razão, entre outras, das menções específicas à Guerra Civil Espanhola, na qual voluntários norte-americanos lutaram contra as forças de Franco.

 

O mal, dir-se-ia, é apenas uma parte da tapeçaria da história e, mesmo nesse caso, passageiro: a repetição de “Hitler is dead” (“Hitler está morto”) serve para enfatizar o fim de uma era de truculências, de um mundo fraturado pela violência e pelo olvido. E é para superar esse olvido que nos servem as palavras: para resgatar a memória dos entes queridos, seus temores, suas lutas, seus legados, enfim, tudo aquilo que define a nossa humanidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Allen Ginsberg

(1926-1997)

 

To Aunt Rose

 

Aunt Rose – now – might I see you

with your thin face and buck tooth smile and pain

of rheumatism – and a long black heavy shoe

for your bony left leg

limping down the long hall in Newark on the running carpet

past the black grand piano

in the day room

where the parties were

and I sang Spanish loyalist songs

in a high squeaky voice

(hysterical) the committee listening

while you limped around the room

collected the money –

Aunt Honey, Uncle Sam, a stranger with a cloth arm

in his pocket

and huge young bald head

of Abraham Lincoln Brigade

 

– your long sad face

your tears of sexual frustration

(what smothered sobs and bony hips

under the pillows of Osborne Terrace)

– the time I stood on the toilet seat naked

and you powdered my thighs with calamine

against the poison ivy – my tender

and shamed first black curled hairs

 

what were you thinking in secret heart then

knowing me a man already –

and I an ignorant girl of family silence on the thin pedestal

of my legs in the bathroom – Museum of Newark.

Aunt Rose

Hitler is dead, Hitler is in Eternity; Hitler is with

Tamburlane and Emily Brontë

 

Though I see you walking still, a ghost on Osborne Terrace

down the long dark hall to the front door

limping a little with a pinched smile

in what must have been a silken

flower dress

welcoming my father, the Poet, on his visit to Newark

– see you arriving in the living room

dancing on your crippled leg

and clapping hands his book

had been accepted by Liveright

 

Hitler is dead and Liveright’s gone out of business

The Attic of the Past and Everlasting Minute are out of print

Uncle Harry sold his last silk stocking

Claire quit interpretive dancing school

Buba sits a wrinkled monument in Old

Ladies Home blinking at new babies

 

last time I saw you was the hospital

pale skull protruding under ashen skin

blue veined unconscious girl

in an oxygen tent

the war in Spain has ended long ago

Aunt Rose

 

Paris, June 1958

 

Rose Ginsberg Gaidemak

(1900-1940)

 

Para Tia Rose

 

Tia Rose (1) – agora – se eu pudesse vê-la

com seu rosto afilado e sorriso de longos dentes e dor

de reumatismo – e um comprido e pesado sapato preto

para sua ossuda perna esquerda

coxeando pelo carpete do longo saguão de Newark

passando pelo grande piano negro

até a sala de visitas

onde davam festas

e eu cantava canções legalistas espanholas

com uma esganiçada voz aguda

(histérico) o comitê ouvindo

enquanto você coxeava pela sala

recolhendo o dinheiro

Tia Honey, Tio Sam, um estranho com um braço de manga de casaco

enfiado no bolso

o enorme moço calvo

da brigada Abraham Lincoln

 

– sua comprida cara triste

suas lágrimas de insatisfação sexual

(que soluços sufocados e ancas ossudas

sob os travesseiros de Osborne Terrace)

– a vez que fiquei sentado nu na privada

enquanto você empoava minhas coxas com calamina

contra a queimadura da urtiga – meus tenros

e envergonhados primeiros negros pelos crespos

 

o que você pensaria secretamente

sabendo que eu já era homem –

e eu a menina ignorante do silêncio familiar (2) no delgado pedestal

das minhas pernas no banheiro – Museu de Newark

Tia Rose

Hitler está morto, Hitler está na Eternidade; Hitler está junto

com Tamerlão e Emily Brontë

 

Porém eu ainda a vejo caminhar, um fantasma em Osborne Terrace

ao longo do saguão escuro até a porta da frente

mancando um pouco com um sorriso cansado naquilo

que deve ter sido um florido

vestido de seda

recebendo meu pai, o Poeta, na sua visita a Newark

– vejo-a chegar à sala de visitas

dançando na sua perna aleijada

e batendo palmas seu livro

havia sido aceito por Liveright

 

Hitler morreu e Liveright encerrou as atividades

O Sótão do Passado e Duradouro Minuto estão esgotados

Tio Harry vendeu sua última meia de seda

Claire largou a escola de dança interpretativa

Buba está largada um monumento encarquilhado na Casa

de Repouso para Senhoras Idosas piscando para bebês

 

a última vez que eu a vi você estava no hospital

pálido crânio emergindo da pele cinérea

menina inconsciente com veias azuis

numa tenda de oxigênio

a guerra da Espanha já acabou há muito tempo

Tia Rose

 

Paris, junho de 1958

 

Notas do Tradutor (Claudio Willer):

 

(1). Tia Rose – irmã de Louis Ginsberg; a primeira metade do poema fala de uma reunião de coleta de fundos a favor dos legalistas republicanos da guerra civil espanhola. A Brigada Abraham Lincoln era um corpo de voluntários estrangeiros, entre os quais alguns notáveis intelectuais, que participou dessa guerra.

 

(2). menina ignorante do silêncio familiar – alusão ao homossexualismo do próprio Ginsberg.

 

Referências:

 

Em Inglês

 

GINSBERG, Allen. To aunt Rose. In: __________. Collected poems: 1947-1985. 2nd publ. New York, NY: Penguin Books, 1995. p. 184-185.

 

Em Português

 

GINSBERG, Allen. Para tia Rose. Tradução de Cláudio Willer. In: __________. Uivo, kaddish e outros poemas: 1953-1960. Prefácio, seleção, tradução e notas por Cláudio Willer. Porto Alegre, RS: L&PM, 1984. p. 113-114.

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