Dedicado a Rose
Ginsberg Gaidemak (1900-1940) – falecida por septicemia –, este poema, redigido
em Paris em 1958, configura uma elegia confessional em que se superpõem camadas
pessoais, até mesmo íntimas, e políticas – em razão, entre outras, das menções
específicas à Guerra Civil Espanhola, na qual voluntários norte-americanos
lutaram contra as forças de Franco.
O mal, dir-se-ia, é
apenas uma parte da tapeçaria da história e, mesmo nesse caso, passageiro: a
repetição de “Hitler is dead” (“Hitler está morto”) serve para enfatizar o fim
de uma era de truculências, de um mundo fraturado pela violência e pelo olvido.
E é para superar esse olvido que nos servem as palavras: para resgatar a
memória dos entes queridos, seus temores, suas lutas, seus legados, enfim, tudo
aquilo que define a nossa humanidade.
J.A.R. – H.C.
Allen Ginsberg
(1926-1997)
To Aunt Rose
Aunt Rose – now – might
I see you
with your thin face
and buck tooth smile and pain
of rheumatism – and a
long black heavy shoe
for your bony left
leg
limping down the long
hall in Newark on the running carpet
past the black grand
piano
in the day room
where the parties
were
and I sang Spanish
loyalist songs
in a high squeaky
voice
(hysterical) the
committee listening
while you limped
around the room
collected the money –
Aunt Honey, Uncle
Sam, a stranger with a cloth arm
in his pocket
and huge young bald
head
of Abraham Lincoln
Brigade
– your long sad face
your tears of sexual
frustration
(what smothered sobs
and bony hips
under the pillows of
Osborne Terrace)
– the time I stood on
the toilet seat naked
and you powdered my
thighs with calamine
against the poison
ivy – my tender
and shamed first
black curled hairs
what were you
thinking in secret heart then
knowing me a man
already –
and I an ignorant
girl of family silence on the thin pedestal
of my legs in the
bathroom – Museum of Newark.
Aunt Rose
Hitler is dead,
Hitler is in Eternity; Hitler is with
Tamburlane and Emily
Brontë
Though I see you
walking still, a ghost on Osborne Terrace
down the long dark
hall to the front door
limping a little with
a pinched smile
in what must have
been a silken
flower dress
welcoming my father,
the Poet, on his visit to Newark
– see you arriving in
the living room
dancing on your
crippled leg
and clapping hands
his book
had been accepted by
Liveright
Hitler is dead and
Liveright’s gone out of business
The Attic of the Past and Everlasting
Minute are out of print
Uncle Harry sold his
last silk stocking
Claire quit interpretive
dancing school
Buba sits a wrinkled
monument in Old
Ladies Home blinking
at new babies
last time I saw you
was the hospital
pale skull protruding
under ashen skin
blue veined
unconscious girl
in an oxygen tent
the war in Spain has
ended long ago
Aunt Rose
Paris, June 1958
Rose Ginsberg
Gaidemak
(1900-1940)
Para Tia Rose
Tia Rose (1) – agora –
se eu pudesse vê-la
com seu rosto afilado
e sorriso de longos dentes e dor
de reumatismo – e um
comprido e pesado sapato preto
para sua ossuda perna
esquerda
coxeando pelo carpete
do longo saguão de Newark
passando pelo grande
piano negro
até a sala de visitas
onde davam festas
e eu cantava canções
legalistas espanholas
com uma esganiçada
voz aguda
(histérico) o comitê
ouvindo
enquanto você coxeava
pela sala
recolhendo o dinheiro
Tia Honey, Tio Sam,
um estranho com um braço de manga de casaco
enfiado no bolso
o enorme moço calvo
da brigada Abraham
Lincoln
– sua comprida cara
triste
suas lágrimas de
insatisfação sexual
(que soluços
sufocados e ancas ossudas
sob os travesseiros
de Osborne Terrace)
– a vez que fiquei
sentado nu na privada
enquanto você empoava
minhas coxas com calamina
contra a queimadura
da urtiga – meus tenros
e envergonhados
primeiros negros pelos crespos
o que você pensaria
secretamente
sabendo que eu já era
homem –
e eu a menina
ignorante do silêncio familiar (2) no delgado pedestal
das minhas pernas no
banheiro – Museu de Newark
Tia Rose
Hitler está morto,
Hitler está na Eternidade; Hitler está junto
com Tamerlão e Emily
Brontë
Porém eu ainda a vejo
caminhar, um fantasma em Osborne Terrace
ao longo do saguão escuro
até a porta da frente
mancando um pouco com
um sorriso cansado naquilo
que deve ter sido um
florido
vestido de seda
recebendo meu pai, o
Poeta, na sua visita a Newark
– vejo-a chegar à
sala de visitas
dançando na sua perna
aleijada
e batendo palmas seu
livro
havia sido aceito por
Liveright
Hitler morreu e
Liveright encerrou as atividades
O Sótão do Passado e Duradouro Minuto
estão esgotados
Tio Harry vendeu sua
última meia de seda
Claire largou a
escola de dança interpretativa
Buba está largada um
monumento encarquilhado na Casa
de Repouso para
Senhoras Idosas piscando para bebês
a última vez que eu a
vi você estava no hospital
pálido crânio
emergindo da pele cinérea
menina inconsciente
com veias azuis
numa tenda de
oxigênio
a guerra da Espanha
já acabou há muito tempo
Tia Rose
Paris, junho de 1958
Notas do Tradutor
(Claudio Willer):
(1). Tia Rose – irmã
de Louis Ginsberg; a primeira metade do poema fala de uma reunião de coleta de
fundos a favor dos legalistas republicanos da guerra civil espanhola. A Brigada
Abraham Lincoln era um corpo de voluntários estrangeiros, entre os quais
alguns notáveis intelectuais, que participou dessa guerra.
(2). menina
ignorante do silêncio familiar – alusão ao homossexualismo do próprio Ginsberg.
Referências:
Em Inglês
GINSBERG, Allen. To
aunt Rose. In: __________. Collected poems: 1947-1985. 2nd publ. New
York, NY: Penguin Books, 1995. p. 184-185.
Em Português
GINSBERG, Allen. Para
tia Rose. Tradução de Cláudio Willer. In: __________. Uivo, kaddish e outros
poemas: 1953-1960. Prefácio, seleção, tradução e notas por Cláudio Willer.
Porto Alegre, RS: L&PM, 1984. p. 113-114.
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