Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Saúl Dias - Um poema

O poeta estrutura uma tentativa de conceituação do que seja o poema, esse compósito multifacético capaz de albergar o espiritual, o doloroso, o contraditório, o suplicante, até mesmo o pedagógico, sob a forma de um objeto verbal que aspira a deixar marcas indeléveis, ainda que notoriamente delimitado por sua fragilidade e natureza provisional.

 

Certas vezes como um gesto de fé ou de desespero, outras tantas como um ensaio a perscrutar o incompreensível, o poema pode deixar transparecer os seus próprios paradoxos, pois que, sem respostas claras nem soluções definitivas, acaba por hospedar em seu cosmos verdades e incertezas, a elocução e o silêncio – ou mais incisivamente, levas de pesares humanos, quer reais quer fictícios.

 

J.A.R. – H.C.

 

Saúl Dias

(1902-1983)

 

Um poema

 

Um poema

é a reza dum rosário

imaginário.

Um esquema

dorido.

Um teorema

que se contradiz.

Uma súplica.

Uma esmola.

 

Dores,

vividas umas, sonhadas outras...

(Inútil destrinçar.)

 

Um poema

é a pedra duma escola

com palavras a giz

para a gente apagar ou guardar...

 

Imagem sem créditos

 

Referência:

 

DIAS, Saúl. Um poema. In: __________. Obra poética. 2. ed. aumentada. Prefácio de David Mourão-Ferreira. Desenhos de Júlio. Porto, PT: Brasília Editora, jan. 1980. p. 186.

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