O poeta estrutura uma
tentativa de conceituação do que seja o poema, esse compósito multifacético capaz
de albergar o espiritual, o doloroso, o contraditório, o suplicante, até mesmo
o pedagógico, sob a forma de um objeto verbal que aspira a deixar marcas indeléveis,
ainda que notoriamente delimitado por sua fragilidade e natureza provisional.
Certas vezes como um
gesto de fé ou de desespero, outras tantas como um ensaio a perscrutar o
incompreensível, o poema pode deixar transparecer os seus próprios paradoxos,
pois que, sem respostas claras nem soluções definitivas, acaba por hospedar em
seu cosmos verdades e incertezas, a elocução e o silêncio – ou mais
incisivamente, levas de pesares humanos, quer reais quer fictícios.
J.A.R. – H.C.
Saúl Dias
(1902-1983)
Um poema
Um poema
é a reza dum rosário
imaginário.
Um esquema
dorido.
Um teorema
que se contradiz.
Uma súplica.
Uma esmola.
Dores,
vividas umas, sonhadas
outras...
(Inútil destrinçar.)
Um poema
é a pedra duma escola
com palavras a giz
para a gente apagar
ou guardar...
Imagem sem créditos
Referência:
DIAS, Saúl. Um poema.
In: __________. Obra poética. 2. ed. aumentada. Prefácio de David
Mourão-Ferreira. Desenhos de Júlio. Porto, PT: Brasília Editora, jan. 1980. p.
186.
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