Nesta “janeira”, o
poeta peruano exibe os seus inequívocos sentimentos ante a proximidade da morte
de seu pai, exatamente num momento em que o calendário se abre a um novo ano, já
não de absoluto proveito para a figura alquebrada que tem diante de si,
deperecida em seu estado anímico e físico, exposta ao inexorável anúncio terminal
da véspera.
O poema alonga-se pelo
tríplice espectro temporal a que estamos submetidos, vale dizer, de indeléveis memórias
e experiências, de condicionamentos e modicidades presentes, de esperanças pelo
que possa haver de perdurável em cada um de nós na eternidade. Enquanto isso, o
ciclo de nascimento, vida e morte se reinicia, trazendo alento por meio de uma rumorosa
alvorada de pássaros!
J.A.R. – H.C.
César Vallejo
(1892-1938)
Mi padre, apenas,
en la mañana pajarina, pone
sus setentiocho años, sus setentiocho
ramos de invierno a solear.
El cementerio de Santiago, untado
en alegre año nuevo, está a la vista.
Cuántas veces sus pasos cortaron hacia él,
y tornaron de algún entierro humilde.
Hoy hace mucho tiempo que mi padre no sale!
Una broma de niños se desbanda.
Otras veces le hablaba a mi madre
de impresiones urbanas, de política;
y hoy, apoyado en su bastón ilustre
que sonara mejor en los años de la Gobernación,
mi padre está desconocido, frágil,
mi padre es una víspera.
Lleva, trae, abstraído, reliquias, cosas,
recuerdos, sugerencias.
La mañana apacible le acompaña
con sus alas blancas de hermana de caridad.
Día eterno es éste, día ingenuo, infante,
coral, oracional;
se corona el tiempo de palomas,
y el futuro se puebla
de caravanas de inmortales rosas.
Padre, aún sigue todo despertando;
es Enero que canta, es tu amor
que resonando va en la Eternidad.
Aún reirás de tus pequeñuelos,
y habrá bulla triunfal en los Vacíos.
Aún será año nuevo. Habrá empanadas;
y yo tendré hambre, cuando toque a misa
en el beato campanario
el buen ciego mélico con quien
departieron mis sílabas escolares y frescas,
mi inocencia rotunda.
Y cuando la mañana llena de gracia,
desde sus senos de tiempo
que son dos renuncias, dos avances de amor
que se tienden y ruegan infinito, eterna vida,
cante, y eche a volar Verbos plurales,
jirones de tu ser,
a la borda de sus alas blancas
de hermana de caridad ¡oh, padre mío!
En: “Los heraldos
negros” (1918)
O pai do artista
(Paul Cézanne: pintor
francês)
Cantiga de Janeiro
Meu pai mal consegue,
na manhã despertada
pelos pássaros, pôr
os seus setenta e
oito anos, os seus setenta e oito
ramos de inverno,
para tomar sol.
O cemitério de
Santiago, ungido
em alegre ano novo,
está à vista.
Quantas vezes os seus
passos levaram-no até lá
e, de algum humilde enterro,
trouxeram-no de volta.
Faz muito tempo que o
meu pai não sai!
Uma anedota infantil
não cumpre a que veio.
Outras vezes, põe-se
a conversar com a minha mãe
sobre impressões
urbanas, sobre política;
e hoje, apoiado em
sua ilustre bengala
que soava melhor nos anos
de Agente Público,
meu pai está irreconhecível,
frágil,
meu pai é uma
véspera.
Leva, traz –
abstraído – relíquias, coisas,
memórias, sugestões.
A plácida manhã o
acompanha
com suas asas brancas
de irmã de caridade.
Dia eterno é este,
dia ingênuo, infante,
coral, oracional;
o tempo coroa-se de
pombas,
e o futuro povoa-se
de caravanas de rosas
imortais.
Pai, tudo ainda está
a despertar;
é Janeiro que canta,
é o teu amor
que, ressoando, vai
até a Eternidade.
Rirás ainda de teus
pequerruchos,
e haverá uma balbúrdia
triunfal nos Vazios.
Ainda será ano novo.
Haverá empanadas;
e eu terei fome
quando, no fervoroso campanário,
for anunciada a missa
pelo bom e mélico cego
com quem
dialogaram as minhas
frescas sílabas de colegial,
a minha rotunda
inocência.
E quando a manhã
cheia de graça,
a partir de seus
seios de tempo,
– duas renúncias,
dois avanços de amor
que se estendem e rogam
por infinitude, por vida eterna –,
vier a cantar e
derramar Verbos plurais pelos ares,
retalhos de teu ser,
à borda de suas asas
brancas
de irmã de caridade –
oh, meu pai!
Em: “Os arautos
negros” (1918)
Referência:
VALLEJO, César. Enereida. In: __________. Poesía completa. Edición crítica y exegética al cuidado de Juan Larrea, con la asistencia de Felipe Daniel Obarrio. 1. ed. Barcelona, ES: Barral Editores, abr. 1978. p. 356-357.



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