Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 3 de janeiro de 2026

César Vallejo - Cantiga de Janeiro

Nesta “janeira”, o poeta peruano exibe os seus inequívocos sentimentos ante a proximidade da morte de seu pai, exatamente num momento em que o calendário se abre a um novo ano, já não de absoluto proveito para a figura alquebrada que tem diante de si, deperecida em seu estado anímico e físico, exposta ao inexorável anúncio terminal da véspera.

 

O poema alonga-se pelo tríplice espectro temporal a que estamos submetidos, vale dizer, de indeléveis memórias e experiências, de condicionamentos e modicidades presentes, de esperanças pelo que possa haver de perdurável em cada um de nós na eternidade. Enquanto isso, o ciclo de nascimento, vida e morte se reinicia, trazendo alento por meio de uma rumorosa alvorada de pássaros!

 

J.A.R. – H.C.

 

César Vallejo

(1892-1938)

 

Enereida

 

Mi padre, apenas,

en la mañana pajarina, pone

sus setentiocho años, sus setentiocho

ramos de invierno a solear.

El cementerio de Santiago, untado

en alegre año nuevo, está a la vista.

Cuántas veces sus pasos cortaron hacia él,

y tornaron de algún entierro humilde.

 

Hoy hace mucho tiempo que mi padre no sale!

Una broma de niños se desbanda.

Otras veces le hablaba a mi madre

de impresiones urbanas, de política;

y hoy, apoyado en su bastón ilustre

que sonara mejor en los años de la Gobernación,

mi padre está desconocido, frágil,

mi padre es una víspera.

Lleva, trae, abstraído, reliquias, cosas,

recuerdos, sugerencias.

La mañana apacible le acompaña

con sus alas blancas de hermana de caridad.

 

Día eterno es éste, día ingenuo, infante,

coral, oracional;

se corona el tiempo de palomas,

y el futuro se puebla

de caravanas de inmortales rosas.

Padre, aún sigue todo despertando;

es Enero que canta, es tu amor

que resonando va en la Eternidad.

Aún reirás de tus pequeñuelos,

y habrá bulla triunfal en los Vacíos.

 

Aún será año nuevo. Habrá empanadas;

y yo tendré hambre, cuando toque a misa

en el beato campanario

el buen ciego mélico con quien

departieron mis sílabas escolares y frescas,

mi inocencia rotunda.

Y cuando la mañana llena de gracia,

desde sus senos de tiempo

que son dos renuncias, dos avances de amor

que se tienden y ruegan infinito, eterna vida,

cante, y eche a volar Verbos plurales,

jirones de tu ser,

a la borda de sus alas blancas

de hermana de caridad ¡oh, padre mío!

 

En: “Los heraldos negros” (1918)

 

O pai do artista

(Paul Cézanne: pintor francês)

 

Cantiga de Janeiro

 

Meu pai mal consegue,

na manhã despertada pelos pássaros, pôr

os seus setenta e oito anos, os seus setenta e oito

ramos de inverno, para tomar sol.

O cemitério de Santiago, ungido

em alegre ano novo, está à vista.

Quantas vezes os seus passos levaram-no até lá

e, de algum humilde enterro, trouxeram-no de volta.

 

Faz muito tempo que o meu pai não sai!

Uma anedota infantil não cumpre a que veio.

Outras vezes, põe-se a conversar com a minha mãe

sobre impressões urbanas, sobre política;

e hoje, apoiado em sua ilustre bengala

que soava melhor nos anos de Agente Público,

meu pai está irreconhecível, frágil,

meu pai é uma véspera.

Leva, traz – abstraído – relíquias, coisas,

memórias, sugestões.

A plácida manhã o acompanha

com suas asas brancas de irmã de caridade.

 

Dia eterno é este, dia ingênuo, infante,

coral, oracional;

o tempo coroa-se de pombas,

e o futuro povoa-se

de caravanas de rosas imortais.

Pai, tudo ainda está a despertar;

é Janeiro que canta, é o teu amor

que, ressoando, vai até a Eternidade.

Rirás ainda de teus pequerruchos,

e haverá uma balbúrdia triunfal nos Vazios.

 

Ainda será ano novo. Haverá empanadas;

e eu terei fome quando, no fervoroso campanário,

for anunciada a missa

pelo bom e mélico cego com quem

dialogaram as minhas frescas sílabas de colegial,

a minha rotunda inocência.

E quando a manhã cheia de graça,

a partir de seus seios de tempo,

– duas renúncias, dois avanços de amor

que se estendem e rogam por infinitude, por vida eterna –,

vier a cantar e derramar Verbos plurais pelos ares,

retalhos de teu ser,

à borda de suas asas brancas

de irmã de caridade – oh, meu pai!

 

Em: “Os arautos negros” (1918)

 

Referência:

 

VALLEJO, César. Enereida. In: __________. Poesía completa. Edición crítica y exegética al cuidado de Juan Larrea, con la asistencia de Felipe Daniel Obarrio. 1. ed. Barcelona, ES: Barral Editores, abr. 1978. p. 356-357. 

 

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