Numa entonação quase
ritual, como se o poema fosse uma oração ou litania, o sujeito lírico se define
por sua obsessão com o fim do mundo enquanto culminação de um destino cósmico e
espiritual, numa visão apocalíptica e metafísica a fundir elementos religiosos,
existenciais e teatrais – neste último caso, pela abordagem da existência como
drama universal, tendo Deus, é claro, como o grande diretor.
Sob tal perspectiva,
o fim do mundo se converte em metáfora da revelação última, oportunidade em que,
ao caos do universo e em apelo ao desejo individual de transcendência, sobrevirá
o arranjo de um ato hierático e estético, não exatamente uma tragédia, senão um
“espetáculo” único – uma “festa prodigiosa” a sintetizar o propósito de toda a
história humana –, dando formas a uma visão que se adjetiva como “beatífica”.
J.A.R. – H.C.
Murilo Mendes
(1901-1975)
Fim
Eu existo para
assistir ao fim do mundo.
Não há outro
espetáculo que me invoque.
Será uma festa
prodigiosa, a única festa.
Ó meus amigos e comunicantes,
tudo o que acontece
desde o princípio
é a sua preparação.
Eu preciso assistir
ao fim do mundo
para saber o que Deus
quer comigo e com todos
e para saciar minha
sede de teatro.
Preciso assistir ao
julgamento universal,
ouvir os coros
imensos,
as lamentações e as
queixas de todos,
desde Adão até o
último homem.
Eu existo para
assistir ao fim do mundo,
eu existo para a
visão beatífica.
O fim do mundo
(Anne Weirich:
artista alemã)
Referência:
MENDES, Murilo. Fim. In: FERRAZ, Eucanaã (Organização e prefácio). Veneno antimonotonia: os melhores poemas e canções contra o tédio. Rio de Janeiro, RJ: Objetiva, 2005. p. 25.
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