Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Murilo Mendes - Fim

Numa entonação quase ritual, como se o poema fosse uma oração ou litania, o sujeito lírico se define por sua obsessão com o fim do mundo enquanto culminação de um destino cósmico e espiritual, numa visão apocalíptica e metafísica a fundir elementos religiosos, existenciais e teatrais – neste último caso, pela abordagem da existência como drama universal, tendo Deus, é claro, como o grande diretor.

 

Sob tal perspectiva, o fim do mundo se converte em metáfora da revelação última, oportunidade em que, ao caos do universo e em apelo ao desejo individual de transcendência, sobrevirá o arranjo de um ato hierático e estético, não exatamente uma tragédia, senão um “espetáculo” único – uma “festa prodigiosa” a sintetizar o propósito de toda a história humana –, dando formas a uma visão que se adjetiva como “beatífica”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Murilo Mendes

(1901-1975)

 

Fim

 

Eu existo para assistir ao fim do mundo.

Não há outro espetáculo que me invoque.

Será uma festa prodigiosa, a única festa.

Ó meus amigos e comunicantes,

tudo o que acontece desde o princípio

é a sua preparação.

 

Eu preciso assistir ao fim do mundo

para saber o que Deus quer comigo e com todos

e para saciar minha sede de teatro.

Preciso assistir ao julgamento universal,

ouvir os coros imensos,

as lamentações e as queixas de todos,

desde Adão até o último homem.

 

Eu existo para assistir ao fim do mundo,

eu existo para a visão beatífica.

 

O fim do mundo

(Anne Weirich: artista alemã)

 

Referência:

 

MENDES, Murilo. Fim. In: FERRAZ, Eucanaã (Organização e prefácio). Veneno antimonotonia: os melhores poemas e canções contra o tédio. Rio de Janeiro, RJ: Objetiva, 2005. p. 25.

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