Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Roberto Bolaño - Amanhecer

Num mundo a pender entre a realidade e a contemplação filosófica, o falante busca no interlocutor a reafirmação da veracidade de suas palavras, as quais, num tom meio confessional, retratam a atividade mental daquele que parece ser a única personagem em movimento dentro do poema, contrastando com a relativa quietude da paisagem urbana.

 

Nesse entorno em que a vida transcorre de um modo quase mecânico, a beleza se apresenta com um tom sombrio, como algo inevitável, mas também desgastado ou desvanecido, longe de sua luminosidade e plenitude, tanto mais que associada à morte ou à perda, o que converte tal “Amanhecer” em metáfora de uma espera que não conduz a um radiante futuro, senão a uma compreensão mais dolorosa e profunda da existência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Roberto Bolaño

(1953-2003)

 

Amanecer

 

Créeme, estoy en el centro de mi habitación

esperando que llueva. Estoy solo. No me importa

terminar o no mi poema. Espero la lluvia,

tomando café y mirando por la ventana un bello paisaje

de patios interiores, con ropas colgadas y quietas,

silenciosas ropas de mármol en la ciudad, donde no existe

el viento y a lo lejos sólo se escucha el zumbido

de una televisión en colores, observada por una familia

que también, a esta hora, toma café reunida alrededor

de una mesa: créeme: las mesas de plástico amarillo

se desdoblan hasta la línea del horizonte y más allá:

hacia los suburbios donde construyen edificios

de departamentos, y un muchacho de 16 sentado sobre

ladrillos rojos contempla el movimiento de las máquinas.

El cielo en la hora del muchacho es un enorme

tornillo hueco con el que la brisa juega. Y el muchacho

juega con ideas. Con ideas y con escenas detenidas.

La inmovilidad es una neblina transparente y dura

que sale de sus ojos.

Créeme: no es el amor el que va a venir,

sino la belleza con su estola de albas muertas.

 

Luzes do amanhecer

(Erin Hanson: artista norte-americana)

 

Amanhecer

 

Acredite, estou no meio do meu quarto

esperando que chova. Estou sozinho. Não ligo

se vou terminar ou não meu poema. Espero a chuva,

tomando café e vendo pela janela uma bela paisagem

de pátios internos, com roupas penduradas e quietas,

silenciosas roupas de mármore na cidade, onde não existe

o vento e só se ouve ao longe o zumbido

de uma tevê em cores, observada por uma família

que também, a essa hora, toma café reunida ao redor

de uma mesa: acredite: as mesas de plástico amarelo

se desdobram até a linha do horizonte, e além:

lá nos subúrbios onde se constroem prédios

de apartamentos, e um garoto de 16 sentado sobre

tijolos vermelhos contempla o movimento das máquinas.

O céu na hora do garoto é um enorme

parafuso oco com que a brisa brinca. E o garoto

brinca com ideias. Com ideias e cenas estáticas.

A imobilidade é uma neblina transparente e dura

que sai de seus olhos.

Acredite: não é o amor que vai vir,

mas a beleza com sua estola de auroras mortas.

 

Referência:

 

BOLAÑO, Roberto. Amanecer / Amanhecer. Tradução de Josely Vianna Baptista. In: __________. A universidade desconhecida. Tradução de Josely Vianna Baptista. Edição bilíngue: espanhol x português. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2021. Em espanhol: p. 20; em português: p. 21.

Nenhum comentário:

Postar um comentário