Num mundo a pender
entre a realidade e a contemplação filosófica, o falante busca no interlocutor
a reafirmação da veracidade de suas palavras, as quais, num tom meio
confessional, retratam a atividade mental daquele que parece ser a única
personagem em movimento dentro do poema, contrastando com a relativa quietude
da paisagem urbana.
Nesse entorno em que
a vida transcorre de um modo quase mecânico, a beleza se apresenta com um tom sombrio,
como algo inevitável, mas também desgastado ou desvanecido, longe de sua
luminosidade e plenitude, tanto mais que associada à morte ou à perda, o que
converte tal “Amanhecer” em metáfora de uma espera que não conduz a um radiante
futuro, senão a uma compreensão mais dolorosa e profunda da existência.
J.A.R. – H.C.
Roberto Bolaño
(1953-2003)
Amanecer
Créeme, estoy en el
centro de mi habitación
esperando que llueva.
Estoy solo. No me importa
terminar o no mi
poema. Espero la lluvia,
tomando café y
mirando por la ventana un bello paisaje
de patios interiores,
con ropas colgadas y quietas,
silenciosas ropas de
mármol en la ciudad, donde no existe
el viento y a lo
lejos sólo se escucha el zumbido
de una televisión en
colores, observada por una familia
que también, a esta
hora, toma café reunida alrededor
de una mesa: créeme:
las mesas de plástico amarillo
se desdoblan hasta la
línea del horizonte y más allá:
hacia los suburbios
donde construyen edificios
de departamentos, y
un muchacho de 16 sentado sobre
ladrillos rojos
contempla el movimiento de las máquinas.
El cielo en la hora
del muchacho es un enorme
tornillo hueco con el
que la brisa juega. Y el muchacho
juega con ideas. Con
ideas y con escenas detenidas.
La inmovilidad es una
neblina transparente y dura
que sale de sus ojos.
Créeme: no es el amor
el que va a venir,
sino la belleza con
su estola de albas muertas.
Luzes do amanhecer
(Erin Hanson: artista
norte-americana)
Amanhecer
Acredite, estou no
meio do meu quarto
esperando que chova.
Estou sozinho. Não ligo
se vou terminar ou
não meu poema. Espero a chuva,
tomando café e vendo
pela janela uma bela paisagem
de pátios internos,
com roupas penduradas e quietas,
silenciosas roupas de
mármore na cidade, onde não existe
o vento e só se ouve
ao longe o zumbido
de uma tevê em cores,
observada por uma família
que também, a essa
hora, toma café reunida ao redor
de uma mesa:
acredite: as mesas de plástico amarelo
se desdobram até a
linha do horizonte, e além:
lá nos subúrbios onde
se constroem prédios
de apartamentos, e um
garoto de 16 sentado sobre
tijolos vermelhos
contempla o movimento das máquinas.
O céu na hora do
garoto é um enorme
parafuso oco com que
a brisa brinca. E o garoto
brinca com ideias.
Com ideias e cenas estáticas.
A imobilidade é uma
neblina transparente e dura
que sai de seus
olhos.
Acredite: não é o
amor que vai vir,
mas a beleza com sua
estola de auroras mortas.
Referência:
BOLAÑO, Roberto. Amanecer
/ Amanhecer. Tradução de Josely Vianna Baptista. In: __________. A
universidade desconhecida. Tradução de Josely Vianna Baptista. Edição
bilíngue: espanhol x português. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras,
2021. Em espanhol: p. 20; em português: p. 21.
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