Ao entregar-se ao “vento”,
o falante do presente poema parece aceitar o ciclo natural da vida e da morte,
obsequiando-se a um elemento que é tanto poderoso quanto efêmero, num experimento
de continuidade com o mundo natural, sob cuja mecânica, de um lado, expõe-se à
sua progressiva dissolução física e, do outro, transporta-se por entre a árida
paisagem do sudoeste estadunidense – habitat preferencial do “ocotillo” (uma planta
nativa daquelas paragens) e da carriça de saguaro (pequeno pássaro que costuma
construir os seus ninhos em cactos).
Nos versos derradeiros,
tem-se a voz lírica unindo-se ao ocaso e a contemplar, juntamente ao vento já atenuado,
o encerramento do dia, num amálgama harmonioso a apontar para o consequente
alvorecer de um mundo renovado, “mansão” definitiva à qual o falante se reintegra,
no fecho de um ciclo deste vasto e interconectado universo.
J.A.R. – H.C.
A. R. Ammons
(1926-2001)
So it came time
for me to cede myself
and I chose
the wind
to be delivered to
The wind was glad
and said it needed all
the body
it could get
to show its motions with
and wanted to know
willingly as I hoped it would
if it could do
something in return
to show its gratitude
When the tree of my bones
rises from the skin I said
come and whirlwinding
stroll my dust
around the plain
so I can see
how the ocotillo does
and how saguaro-wren is
and when you fall
with evening
fall with me here
where we can watch
the closing up of day
and think how morning breaks
Imagem sem créditos
Mansão
Chegou então o
momento
de eu me entregar
e escolhi
me confiar
ao vento
O vento alegrou-se
e disse que precisava
da maior massa
possível
do corpo
para expressar seus movimentos
e quis saber de bom
grado se
havendo algo em troca
que pudesse fazer
para mostrar sua
gratidão
como eu esperava que o fizesse
Quando a árvore dos
meus ossos
se erguer da pele disse-lhe eu
vem em rodopios
e leva a passear o
meu pó
pela planície
para que eu possa ver
como medra o ocotillo
como é a carriça de saguaro
e quando amainares
ao anoitecer
recolhe-te aqui ao meu
lado
onde poderemos contemplar
o desfecho do dia
e matutar sobre o
irromper da aurora
Referência:
AMMONS, A. R.
Mansion. In: __________. Expressions of sea level. 5th print. Columbus,
OH: Ohio State University Press, 1963. p. 41.
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