Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

A. R. Ammons - Mansão

Ao entregar-se ao “vento”, o falante do presente poema parece aceitar o ciclo natural da vida e da morte, obsequiando-se a um elemento que é tanto poderoso quanto efêmero, num experimento de continuidade com o mundo natural, sob cuja mecânica, de um lado, expõe-se à sua progressiva dissolução física e, do outro, transporta-se por entre a árida paisagem do sudoeste estadunidense – habitat preferencial do “ocotillo” (uma planta nativa daquelas paragens) e da carriça de saguaro (pequeno pássaro que costuma construir os seus ninhos em cactos).

 

Nos versos derradeiros, tem-se a voz lírica unindo-se ao ocaso e a contemplar, juntamente ao vento já atenuado, o encerramento do dia, num amálgama harmonioso a apontar para o consequente alvorecer de um mundo renovado, “mansão” definitiva à qual o falante se reintegra, no fecho de um ciclo deste vasto e interconectado universo.

 

J.A.R. – H.C.

 

A. R. Ammons

(1926-2001)

 

Mansion

 

So it came time

for me to cede myself

and I chose

the wind

to be delivered to

 

The wind was glad

and said it needed all

the body

it could get

to show its motions with

 

and wanted to know

willingly as I hoped it would

if it could do

something in return

to show its gratitude

 

When the tree of my bones

rises from the skin I said

come and whirlwinding

stroll my dust

around the plain

 

so I can see

how the ocotillo does

and how saguaro-wren is

and when you fall

with evening

 

fall with me here

where we can watch

the closing up of day

and think how morning breaks

 

Imagem sem créditos

 

Mansão

 

Chegou então o momento

de eu me entregar

e escolhi

me confiar

ao vento

 

O vento alegrou-se

e disse que precisava

da maior massa possível

do corpo

para expressar seus movimentos

 

e quis saber de bom grado se

havendo algo em troca

que pudesse fazer

para mostrar sua gratidão

como eu esperava que o fizesse

 

Quando a árvore dos meus ossos

se erguer da pele disse-lhe eu

vem em rodopios

e leva a passear o meu pó

pela planície

 

para que eu possa ver

como medra o ocotillo

como é a carriça de saguaro

e quando amainares

ao anoitecer

 

recolhe-te aqui ao meu lado

onde poderemos contemplar

o desfecho do dia

e matutar sobre o irromper da aurora

 

Referência:

 

AMMONS, A. R. Mansion. In: __________. Expressions of sea level. 5th print. Columbus, OH: Ohio State University Press, 1963. p. 41.

Nenhum comentário:

Postar um comentário