Por trás da
simplicidade das imagens empregadas pelo poeta em seus versos, há a profundidade
da pergunta que procura nos levar à reflexão: o que fazemos com o nosso tempo
limitado? Trata-se, realmente, de um “desperdício” ou podemos encontrar alguma beleza
e propósito na efemeridade dos elementos naturais e, por extensão, da vida
humana?
Há quem possa assumir
um certo tom estoico no emprego da palavra “desperdício”, interpretando-a não
negativamente, mas sob o ponto de vista da temporalidade de todas as coisas: ainda
que nossas vidas sejam breves e, talvez, insignificantes no grande esquema do
universo, ainda assim têm um valor intrínseco em sua capacidade de perceber e
experimentar o mundo – mesmo que seja por um átimo na escala da eternidade.
J.A.R. – H.C.
Yehuda Amichai
(1924-2000)
Vento
Vento, que
desperdício de vento
és tu. Transferir
areia para areia,
de mim para ti,
cheiro para cheiro.
Vento, que
desperdício!
Nuvens, que
desperdício de nuvens,
não para chover,
apenas mudar
um pouco as cores da
Galileia Ocidental
para nós.
Minha vida, que
desperdício de vida
é isso. Só para esses
dias. Aqui.
Nuvens e Água
(Arthur Dove: artista
norte-americano)
Referência:
AMICHAI, Yehuda. Vento. Tradução de Moacir Amâncio. In: __________. Terra e paz: antologia poética. Organização e tradução de Moacir Amâncio. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Bazar do Tempo, 2018. p. 133.
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