Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 24 de janeiro de 2026

Yehuda Amichai - Vento

Por trás da simplicidade das imagens empregadas pelo poeta em seus versos, há a profundidade da pergunta que procura nos levar à reflexão: o que fazemos com o nosso tempo limitado? Trata-se, realmente, de um “desperdício” ou podemos encontrar alguma beleza e propósito na efemeridade dos elementos naturais e, por extensão, da vida humana?

 

Há quem possa assumir um certo tom estoico no emprego da palavra “desperdício”, interpretando-a não negativamente, mas sob o ponto de vista da temporalidade de todas as coisas: ainda que nossas vidas sejam breves e, talvez, insignificantes no grande esquema do universo, ainda assim têm um valor intrínseco em sua capacidade de perceber e experimentar o mundo – mesmo que seja por um átimo na escala da eternidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Yehuda Amichai

(1924-2000)

 

Vento

 

Vento, que desperdício de vento

és tu. Transferir areia para areia,

de mim para ti, cheiro para cheiro.

Vento, que desperdício!

 

Nuvens, que desperdício de nuvens,

não para chover, apenas mudar

um pouco as cores da Galileia Ocidental

para nós.

 

Minha vida, que desperdício de vida

é isso. Só para esses dias. Aqui.

 

Nuvens e Água

(Arthur Dove: artista norte-americano)

 

Referência:

 

AMICHAI, Yehuda. Vento. Tradução de Moacir Amâncio. In: __________. Terra e paz: antologia poética. Organização e tradução de Moacir Amâncio. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Bazar do Tempo, 2018. p. 133.

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