Com um tema bastante
afeito à mística e à religiosidade – tão caras ao movimento literário simbolista
–, Guimaraens recorre à festa cristã que celebra a visita dos Reis Magos a
Jesus para, num tom reverencial, quase litúrgico, oferecer-se espiritualmente em
devoção, num ato de adesão à universalidade da fé, simbolizada, a bem dizer,
pela presença de tão ilustres visitantes transmontanos.
O poeta explora a
ideia de uma luz à volta desse evento sagrado, do mistério de humildade encarnada
no divino, bem assim do destino sacrificial de Cristo – o Cordeiro de Deus –,
elevando a sua voz aos domínios do plano cósmico, pois que, a seu ver, a
verdadeira contemplação desse lema revelador transcende em muito as lindes em
que se passam os fatos terrenos.
J.A.R. – H.C.
Alphonsus de
Guimaraens
(1870-1921)
Epifania
A Arduíno Bolívar
O menino Jesus, no
estábulo distante,
Fita o sol, que o
contempla, olímpico de luz.
E ninguém sabe qual
tem fulgor mais radiante,
– Se o argênteo olhar
do sol, ou se o olhar de Jesus.
Cai a tarde. Miriã
tomba de joelhos, ante
O divino clarão dos
seus pezinhos nus.
E não há por ali
zagal que não descante
Em seu louvor: no céu
aparece uma cruz.
Mais cintilante fulge
a áurea Estrela de Efrata.
Vêm outras, e outras
mais, todo o céu é de prata,
Anda em tudo o
esplendor eterno do Agnus Dei.
Vinde, ó Magos! São
três os Príncipes do Oriente.
E a Cristo cada um
faz, na paz da fé clemente,
A oferenda que, um
dia, entre astros, lhe farei!
Em: “Setenário das
Dores de Nossa Senhora” (1899)
A Adoração dos Magos
(Pedro Atanasio Bocanegra: pintor espanhol)
Referência:
GUIMARAENS, Alphonsus. Epifania. In: __________. Poesia completa: em um volume. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho et alii. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1997. p. 394. (Biblioteca Luso-brasileira; Série brasileira)



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