Num tríptico sucinto,
Nejar explora a tensão entre o eu autêntico e as narrativas externas que moldam
nossas vidas, entre as experiências vividas e aquelas que escapam ao controle
consciente, sugerindo que, talvez, nossa verdadeira essência não resida nos
fatos objetivos que nos dizem respeito, senão nas emoções, nos sonhos e nas
aspirações que estão para além da linearidade do tempo.
Seremos nós os verdadeiros protagonistas de nossas vidas ou a experimentamos num estado de fragmentação no qual outras pessoas, circunstâncias ou alheias referências apropriam-se de nossa história e dão-lhe forma sem nosso consentimento? Como nos transformar, nos reconstruir em novas perspectivas e direções, escapando aos grilhões de uma biografia estática e predefinida, sem que nos precipitemos no caos, sem que percamos o nosso próprio senso de identidade?! “To be, or not to be, that is the question”! – diria certo príncipe da Dinamarca.
J.A.R. – H.C.
Carlos Nejar
(n. 1939)
Biografia
I
Não tive biografia
mas metáforas
Manga na praça
foi a infância
A alma dividida
de nascença
Com ela o mundo
arfava em cada coisa
O mar inchava
o Sol de maresia
Inchava na palavra
e as velas iam
Vivi sofri – eis tudo
e o vivido
arrasta o barco
pelo mar que é findo
II
A biografia
se instaurou
sem mim
Alguém a foi
vivendo
sem sabê-lo
Alguém deitou
no sono
em que acordei
Alguém
no meu lugar
foi biografado
III
Como se esperasse
de outra imagem
e música tornasse
ao bandolim
E nunca mais parasse
era voragem
alguém
desvencilhava-se
de mim
Em: “Um País o
Coração” (1980)
Meninos colhendo
frutas
(Francisco de Goya: pintor
espanhol)
Referência:
NEJAR, Carlos.
Biografia. In: __________. Antologia poética. Prefácio, organização e
selecção de António Osório. 1. ed. Cascais, PT: Pergaminho, 2003. p. 119-120.
(“Poesia Fértil”; v. 4)
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