Júdice apresenta-nos
uma reflexão metapoética sobre o ato criativo e suas contradições, uma viagem
cheia de expectativas não cumpridas, durante a qual o poeta pervaga entre a
beleza das paisagens interiores e a crueza da página em branco, ou por outra,
entre as paisagens exuberantes concebidas pela imaginação e a dificuldade para fixá-las
em palavras.
Para se proteger do
mau tempo de outono – uma alusão que talvez diga respeito bem mais ao estado
recessivo de criatividade do que ao desfecho de uma vida –, o falante abre o
seu “chapéu de chuva”, permitindo-se assim, ainda que tropegamente, seguir ao
encalço da poesia no terreno da escrita, enquanto o “clima” não se reorienta a
condições mais favoráveis.
J.A.R. – H.C.
Nuno Júdice
(1949-2024)
Outono
Criei a alma. A
vegetação de países
irrepetíveis. Vastos
bosques orlam os caminhos.
Os muros
dão para o mar. As
aves pontuam o céu. As ondas
arremessam-se
sobre o litoral. O
poema é cruel,
indeciso.
Preparei a nostalgia
violenta da criação. Sentei-me
nos bares marítimos
de cidades inglesas,
esperando barcos
que não vieram.
Invoquei regressos, longas
viagens, percursos
espirituais. Cada dia me trouxe
urna diferente sensação.
As folhas juncam o chão.
O terror
assola o planalto, as
populações mórbidas
do poente. Uma voz
canta as mulheres obscuras
de Southampton. Chove
no poema
há alguns anos. O poeta
abre, finalmente,
o chapéu de chuva.
Em: “A Noção do Poema”
(1972)
Outono na Baviera
(Wassily Kandinsky:
artista russo)
Referência:
JÚDICE, Nuno. Outono.
In: CASTRO, Mario Morales (Organización y Traducción). Antología breve de
la poesía portuguesa del siglo XX. Edición bilingüe: portugués x español.
1. ed. México, D.F.: Instituto Politécnico Nacional, 1998. p. 342.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário