Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Nuno Júdice - Outono

Júdice apresenta-nos uma reflexão metapoética sobre o ato criativo e suas contradições, uma viagem cheia de expectativas não cumpridas, durante a qual o poeta pervaga entre a beleza das paisagens interiores e a crueza da página em branco, ou por outra, entre as paisagens exuberantes concebidas pela imaginação e a dificuldade para fixá-las em palavras.

 

Para se proteger do mau tempo de outono – uma alusão que talvez diga respeito bem mais ao estado recessivo de criatividade do que ao desfecho de uma vida –, o falante abre o seu “chapéu de chuva”, permitindo-se assim, ainda que tropegamente, seguir ao encalço da poesia no terreno da escrita, enquanto o “clima” não se reorienta a condições mais favoráveis.

 

J.A.R. – H.C.

 

Nuno Júdice

(1949-2024)

 

Outono

 

Criei a alma. A vegetação de países

irrepetíveis. Vastos bosques orlam os caminhos.

Os muros

dão para o mar. As aves pontuam o céu. As ondas

arremessam-se

sobre o litoral. O poema é cruel,

indeciso.

 

Preparei a nostalgia violenta da criação. Sentei-me

nos bares marítimos de cidades inglesas,

esperando barcos

que não vieram. Invoquei regressos, longas

viagens, percursos espirituais. Cada dia me trouxe

urna diferente sensação.

 

As folhas juncam o chão. O terror

assola o planalto, as populações mórbidas

do poente. Uma voz canta as mulheres obscuras

de Southampton. Chove no poema

há alguns anos. O poeta abre, finalmente,

o chapéu de chuva.

 

Em: “A Noção do Poema” (1972)

 

Outono na Baviera

(Wassily Kandinsky: artista russo)

 

Referência:

 

JÚDICE, Nuno. Outono. In: CASTRO, Mario Morales (Organización y Traducción). Antología breve de la poesía portuguesa del siglo XX. Edición bilingüe: portugués x español. 1. ed. México, D.F.: Instituto Politécnico Nacional, 1998. p. 342.

Nenhum comentário:

Postar um comentário