Dedicadas ao ator
canadense Donald Sutherland (1935-2024), estas breves linhas, embora muito
expressivas, condensam em boa medida a poética do renomado escritor mexicano: a
realidade como uma construção frágil, a percepção como ato criativo e a tensão
entre o visível e o invisível, ou de outro modo, entre o tangível e o intangível.
Paz não só questiona
os limites de nossos sentidos, senão que também nos convida a escutar o
inefável, essa “luz do outro lado” que bate, pulsa, palpita para além das “sombras”
a que chamamos “mundo”: ainda que habitemos uma realidade em seu jogo de aparências,
um universo de formas contingentes, intuímos em seu centro vazio um mistério,
um eco – quiçá do sagrado – a sustentá-lo e a conectá-lo com a eternidade.
J.A.R. – H.C.
Octavio Paz
(1914-1998)
Este lado
A Donald Sutherland
Hay luz. No la
tocamos ni la vemos.
En sus vacías
claridades
reposa lo que vemos y
tocamos.
Yo veo con las yemas
de mis dedos
lo que palpan mis
ojos:
sombras, mundo.
Con las sombras
dibujo mundos,
disipo mundos con las
sombras.
Oigo latir la luz del
otro lado.
De la sección “Gavilla”,
en “Árbol adentro”
(1976-1988)
Os dois lados da vida
(Hamza Mushtaq: artista
paquistanês)
Este lado
A Donald Sutherland
Há luz. Não a tocamos
nem a vemos.
Em suas vazias
claridades
repousa o que vemos e
tocamos.
Vejo com as pontas de
meus dedos
o que os meus olhos
tocam:
sombras, mundo.
Com as sombras
desenho mundos,
dissipo mundos com as
sombras.
Ouço a luz a bater do
outro lado.
Da seção “Feixe”,
em “Árvore por
dentro” (1976-1988)
Referência:
PAZ, Octavio. Este
lado. In: __________. Obras completas. Obra poética II: 1969-1998. Tomo
XII. Edición del autor. 1. ed. México, DF: Fondo de Cultura Económica, 2004. p.
110. (Letras Mexicanas)
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário