Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 18 de janeiro de 2026

Mario Quintana - Seiscentos e sessenta e seis

O poeta, ao intitular o seu poema com o “número da besta” no imaginário bíblico (666), tenciona evocar não exatamente um mal sobrenatural, senão a monotonia da existência terrena quando experimentada sob o peso enfadonho de tarefas repetitivas, a pressão de obrigações impostas, reduzida a meros deveres – rotina essa que, mais tarde, pode nos levar ao arrependimento de não havermos optado por alternativas mais maleáveis de se viver.

 

Não se propõe, parece-me claro, um hedonismo irresponsável, mas uma reconciliação com a livre marcha nesta jornada, cujos sentidos se constroem ao caminhar de modo consciente, expurgando das horas o lastro de seu peso morto, a carga opressiva desse “modo automático” de se passar o tempo, tendo em mira o alcance da plenitude, da autenticidade nos escaninhos do quotidiano.

 

J.A.R. – H.C.

 

Mario Quintana

(1906-1994)

 

Seiscentos e sessenta e seis

 

A vida é uns deveres que nós trouxemos

para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...

Quando se vê, já é 6ª feira...

Quando se vê, passaram 60 anos!

Agora, é tarde demais para ser reprovado...

E se me dessem – um dia – uma outra

oportunidade,

eu nem olhava o relógio

seguia sempre em frente...

E iria jogando pelo caminho a casca dourada

e inútil das horas.

 

Em: “Esconderijos do Tempo” (1980)

 

Um velho e seu neto

(Domenico Ghirlandaio: pintor italiano)

 

Referência:

 

QUINTANA, Mario. Seiscentos e sessenta e seis. In: __________. Nova antologia poética. 12. ed. São Paulo, SP: Globo, 2007. p. 99. (Coleção Mario Quintana)

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