O poeta, ao intitular
o seu poema com o “número da besta” no imaginário bíblico (666), tenciona evocar
não exatamente um mal sobrenatural, senão a monotonia da existência terrena
quando experimentada sob o peso enfadonho de tarefas repetitivas, a pressão de
obrigações impostas, reduzida a meros deveres – rotina essa que, mais tarde, pode
nos levar ao arrependimento de não havermos optado por alternativas mais maleáveis
de se viver.
Não se propõe, parece-me
claro, um hedonismo irresponsável, mas uma reconciliação com a livre marcha nesta
jornada, cujos sentidos se constroem ao caminhar de modo consciente, expurgando
das horas o lastro de seu peso morto, a carga opressiva desse “modo automático”
de se passar o tempo, tendo em mira o alcance da plenitude, da autenticidade nos
escaninhos do quotidiano.
J.A.R. – H.C.
Mario Quintana
(1906-1994)
Seiscentos e sessenta e seis
A vida é uns deveres
que nós trouxemos
para fazer em casa.
Quando se vê, já são
6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ª
feira...
Quando se vê,
passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais
para ser reprovado...
E se me dessem – um
dia – uma outra
oportunidade,
eu nem olhava o
relógio
seguia sempre em frente...
E iria jogando pelo
caminho a casca dourada
e inútil das horas.
Em: “Esconderijos do
Tempo” (1980)
Um velho e seu neto
(Domenico Ghirlandaio:
pintor italiano)
Referência:
QUINTANA, Mario.
Seiscentos e sessenta e seis. In: __________. Nova antologia poética.
12. ed. São Paulo, SP: Globo, 2007. p. 99. (Coleção Mario Quintana)
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