Numa elocução
imperativa, a instar os leitores para que resistam à mediocridade e ajam para
superar os obstáculos que se opõem à mudança social, o falante, na prática,
arquiteta um manifesto ético para enaltecer a luta interior e coletiva contra
as forças que confrangem a livre manifestação da dignidade humana.
Ao militar em favor
da integridade moral, contra a conformidade social, a “impostura e a
mesquinhez”, levanta-se o sujeito lírico para confrontar o vazio de valores
autênticos capazes de prover uma vida significativa, ou mais contundentemente, a
ausência de luzes a amparar um juízo crítico acerca das práticas sórdidas e
cobiçosas que se propagam à vista de todos, aqui como alhures.
Nessa toada, de um
ato de rebelião “há de nascer o Espanto”, espécie de despertar, de paixão
interior por meio da qual se açula uma profunda repulsa ao cinismo e à
corrupção generalizados.
J.A.R. – H.C.
Eduardo Alves da
Costa
(n. 1936)
Não te rendas jamais
Procura acrescentar
um côvado
à tua altura. Que o
mundo está
à míngua de valores
e um homem de
estatura justifica
a existência de um
milhão de pigmeus
a navegar na rota
previsível
entre a impostura e a
mesquinhez
dos filisteus.
Ergue-te desse oceano
que dócil se derrama
sobre a areia
e busca as
profundezas, o tumulto
do sangue a irromper
na veia
contra os diques do
cinismo
e os rochedos de
torpezas
que as nações
antepõem a seus rebeldes.
Não te rendas jamais,
nunca te entregues,
foge das redes,
expande teu destino.
E caso fiques tão só
que nem mesmo um cão
venha te lamber a
mão,
atira-te contra as
escarpas
de tua angústia e
explode
em grito, em raiva,
em pranto.
Porque desse teu
gesto
há de nascer o
Espanto.
Resiliência
(Déhia Rabia: artista
argelina)
Referência:
COSTA, Eduardo Alves
da. Não te rendas jamais. In: __________. No caminho, com Maiakóvski.
São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1987. p. 149.
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