Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 10 de janeiro de 2026

Eduardo Alves da Costa - Não te rendas jamais

Numa elocução imperativa, a instar os leitores para que resistam à mediocridade e ajam para superar os obstáculos que se opõem à mudança social, o falante, na prática, arquiteta um manifesto ético para enaltecer a luta interior e coletiva contra as forças que confrangem a livre manifestação da dignidade humana.

 

Ao militar em favor da integridade moral, contra a conformidade social, a “impostura e a mesquinhez”, levanta-se o sujeito lírico para confrontar o vazio de valores autênticos capazes de prover uma vida significativa, ou mais contundentemente, a ausência de luzes a amparar um juízo crítico acerca das práticas sórdidas e cobiçosas que se propagam à vista de todos, aqui como alhures.

 

Nessa toada, de um ato de rebelião “há de nascer o Espanto”, espécie de despertar, de paixão interior por meio da qual se açula uma profunda repulsa ao cinismo e à corrupção generalizados.

 

J.A.R. – H.C.

 

Eduardo Alves da Costa

(n. 1936)

 

Não te rendas jamais

 

Procura acrescentar um côvado

à tua altura. Que o mundo está

à míngua de valores

e um homem de estatura justifica

a existência de um milhão de pigmeus

a navegar na rota previsível

entre a impostura e a mesquinhez

dos filisteus. Ergue-te desse oceano

que dócil se derrama sobre a areia

e busca as profundezas, o tumulto

do sangue a irromper na veia

contra os diques do cinismo

e os rochedos de torpezas

que as nações antepõem a seus rebeldes.

Não te rendas jamais, nunca te entregues,

foge das redes, expande teu destino.

E caso fiques tão só que nem mesmo um cão

venha te lamber a mão,

atira-te contra as escarpas

de tua angústia e explode

em grito, em raiva, em pranto.

Porque desse teu gesto

há de nascer o Espanto.

 

Resiliência

(Déhia Rabia: artista argelina)

 

Referência:

 

COSTA, Eduardo Alves da. Não te rendas jamais. In: __________. No caminho, com Maiakóvski. São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1987. p. 149.

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