Num mundo marcado
pela ausência e pelo exílio, o sujeito lírico assume o seu papel de custodiante
ou de tecedor da eternidade, enfatizando que, a despeito da mudança dos ventos
ou da partida dos amigos, as palavras permanecem, pois que há na arte – na Lírica,
muito especificamente – algo de transcendente, de perdurável.
É que a arte, a seu
ver, teria o dom de transformar o transitório – paisagens, emoções, viagens – num
legado resistente ao esquecimento, motivo por que empenha-se o poeta – autêntico
mediador entre o divino e o mortal – em fixar numa súmula perene todo o acervo
de memórias compendiadoras das “belezas da terra”, dotando-a de uma aura simbólica,
lábil entre o sagrado e o quase místico.
J.A.R. – H.C.
Friedrich Hölderlin
(1770-1843)
(Pastel de Franz Karl
Hiemer)
Der Nordost wehet,
Der liebste unter den Winden
Mir, weil er feurigen Geist
Und gute Fahrt verheißet den Schiffern.
Geh aber nun und grüße
Die schöne Garonne,
Und die Gärten von Bourdeaux
Dort, wo am scharfen Ufer
Hingehet der Steg und in den Strom
Tief fällt der Bach, darüber aber
Hinschauet ein edel Paar
Von Eichen und Silberpappeln;
Noch denket das mir wohl und wie
Die breiten Gipfel neiget
Der Ulmwald, über die Mühl,
Im Hofe aber wächset ein Feigenbaum.
An Feiertagen gehn
Die braunen Frauen daselbst
Auf seidnen Boden,
Zur Märzenzeit,
Wenn gleich ist Nacht und Tag,
Und über langsamen Stegen,
Von goldenen Träumen schwer,
Einwiegende Lüfte ziehen.
Es reiche aber,
Des dunkeln Lichtes voll,
Mir einer den duftenden Becher,
Damit ich ruhen möge; denn süß
Wär unter Schatten der Schlummer.
Nicht ist es gut,
Seellos von sterblichen
Gedanken zu sein. Doch gut
Ist ein Gespräch und zu sagen
Des Herzens Meinung, zu hören viel
Von Tagen der Lieb,
Und Taten, welche geschehen.
Wo aber sind die Freunde? Bellarmin
Mit dem Gefährten? Mancher
Trägt Scheue, an die Quelle zu gehn;
Es beginnet nämlich der Reichtum
Im Meere. Sie,
Wie Maler, bringen zusammen
Das Schöne der Erd und verschmähn
Den geflügelten Krieg nicht, und
Zu wohnen einsam, jahrlang, unter
Dem entlaubten Mast, wo nicht
die Nacht durchglänzen
Die Feiertage der Stadt,
Und Saitenspiel und eingeborener Tanz nicht.
Nun aber sind zu Indiern
Die Männer gegangen,
Dort an der luftigen Spitz
An Traubenbergen, wo herab
Die Dordogne kommt,
Und zusammen mit der prächtgen
Garonne meerbreit
Ausgehet der Strom. Es nehmet aber
Und gibt Gedächtnis die See,
Und die Lieb auch heftet fleißig die Augen,
Was bleibet aber, stiften die Dichter.
Homem e mulher
contemplando a lua
(Caspar David
Friedrich: pintor alemão)
Lembrança
Sopra o vento
nordeste,
Meu vento preferido,
Porque promete aos
navegantes
Boa viagem e espírito
ardente.
Agora vai porém,
Vai saudar o belo
Garona
E os jardins de
Bordéus
Onde, ao longo da
riba abrupta.
Corre o caminho e o
riacho
Tomba fundo no rio
vigiado
Do alto por um nobre
par
De carvalhos e álamos
brancos;
Lembro-me ainda bem
de como inclina
O bosque de olmos
Suas largas copas
sobre o moinho;
No pátio cresce uma
figueira.
De lá se vão, em dias
de festa,
Pisando um chão de
seda,
As mulheres morenas
Pelos tempos de março
Quando dia e noite
igualam-se
E as brisas embalam
Preguiçosas veredas
Repletas de sonhos
dourados.
Que me passem, porém,
Cheia de luz sombria,
Uma das taças
perfumosas
Com que eu possa
repousar: seria
Doce adormecer sob as
sombras.
Pois não é bom
Estar sem alma, sem
Pensamentos mortais.
Bom é
Deixar que o coração
Fale e converse,
ouvir
Histórias de amor
E feitos passados.
Mas onde estão os
amigos? Belarmino
Com o companheiro?
Muitos
Têm pudor de ir até a
fonte,
Pois a riqueza começa
No mar. Como
Pintores, eles
recolhem
As belezas da terra
sem
Desdenhar a guerra
alada nem
A solidão, anos a fio,
sob
O mastro sem folhas
onde não transluzem
Na noite as festas da
cidade
Com harpas e danças.
Mas agora, rumo à Índia,
Eis que os homens
partiram.
Lá, no promontório
ventoso,
Junto ao monte das
vinhas, onde
Desce o Dordonha
E se une ao
esplêndido Garona,
Ganhando largura de
mar, o mar
Que dá a memória e a
tira, assim
Como o amor detém os
olhos diligentes.
O que fica, porém, é
o que os poetas fundam.
Referência:
HÖLDERLIN, Friedrich. Andenken / Lembrança. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1991. Em alemão: p. 128 e 130; em português: p. 129 e 131.
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