Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Friedrich Hölderlin - Lembrança

Num mundo marcado pela ausência e pelo exílio, o sujeito lírico assume o seu papel de custodiante ou de tecedor da eternidade, enfatizando que, a despeito da mudança dos ventos ou da partida dos amigos, as palavras permanecem, pois que há na arte – na Lírica, muito especificamente – algo de transcendente, de perdurável.

 

É que a arte, a seu ver, teria o dom de transformar o transitório – paisagens, emoções, viagens – num legado resistente ao esquecimento, motivo por que empenha-se o poeta – autêntico mediador entre o divino e o mortal – em fixar numa súmula perene todo o acervo de memórias compendiadoras das “belezas da terra”, dotando-a de uma aura simbólica, lábil entre o sagrado e o quase místico.

 

J.A.R. – H.C.

 

Friedrich Hölderlin

(1770-1843)

(Pastel de Franz Karl Hiemer)

 

Andenken

 

Der Nordost wehet,

Der liebste unter den Winden

Mir, weil er feurigen Geist

Und gute Fahrt verheißet den Schiffern.

Geh aber nun und grüße

Die schöne Garonne,

Und die Gärten von Bourdeaux

Dort, wo am scharfen Ufer

Hingehet der Steg und in den Strom

Tief fällt der Bach, darüber aber

Hinschauet ein edel Paar

Von Eichen und Silberpappeln;

 

Noch denket das mir wohl und wie

Die breiten Gipfel neiget

Der Ulmwald, über die Mühl,

Im Hofe aber wächset ein Feigenbaum.

An Feiertagen gehn

Die braunen Frauen daselbst

Auf seidnen Boden,

Zur Märzenzeit,

Wenn gleich ist Nacht und Tag,

Und über langsamen Stegen,

Von goldenen Träumen schwer,

Einwiegende Lüfte ziehen.

 

Es reiche aber,

Des dunkeln Lichtes voll,

Mir einer den duftenden Becher,

Damit ich ruhen möge; denn süß

Wär unter Schatten der Schlummer.

Nicht ist es gut,

Seellos von sterblichen

Gedanken zu sein. Doch gut

Ist ein Gespräch und zu sagen

Des Herzens Meinung, zu hören viel

Von Tagen der Lieb,

Und Taten, welche geschehen.

 

Wo aber sind die Freunde? Bellarmin

Mit dem Gefährten? Mancher

Trägt Scheue, an die Quelle zu gehn;

Es beginnet nämlich der Reichtum

Im Meere. Sie,

Wie Maler, bringen zusammen

Das Schöne der Erd und verschmähn

Den geflügelten Krieg nicht, und

Zu wohnen einsam, jahrlang, unter

Dem entlaubten Mast, wo nicht

die Nacht durchglänzen

Die Feiertage der Stadt,

Und Saitenspiel und eingeborener Tanz nicht.

 

Nun aber sind zu Indiern

Die Männer gegangen,

Dort an der luftigen Spitz

An Traubenbergen, wo herab

Die Dordogne kommt,

Und zusammen mit der prächtgen

Garonne meerbreit

Ausgehet der Strom. Es nehmet aber

Und gibt Gedächtnis die See,

Und die Lieb auch heftet fleißig die Augen,

Was bleibet aber, stiften die Dichter.

 

Homem e mulher contemplando a lua

(Caspar David Friedrich: pintor alemão)

 

Lembrança

 

Sopra o vento nordeste,

Meu vento preferido,

Porque promete aos navegantes

Boa viagem e espírito ardente.

Agora vai porém,

Vai saudar o belo Garona

E os jardins de Bordéus

Onde, ao longo da riba abrupta.

Corre o caminho e o riacho

Tomba fundo no rio vigiado

Do alto por um nobre par

De carvalhos e álamos brancos;

 

Lembro-me ainda bem de como inclina

O bosque de olmos

Suas largas copas sobre o moinho;

No pátio cresce uma figueira.

De lá se vão, em dias de festa,

Pisando um chão de seda,

As mulheres morenas

Pelos tempos de março

Quando dia e noite igualam-se

E as brisas embalam

Preguiçosas veredas

Repletas de sonhos dourados.

 

Que me passem, porém,

Cheia de luz sombria,

Uma das taças perfumosas

Com que eu possa repousar: seria

Doce adormecer sob as sombras.

Pois não é bom

Estar sem alma, sem

Pensamentos mortais. Bom é

Deixar que o coração

Fale e converse, ouvir

Histórias de amor

E feitos passados.

 

Mas onde estão os amigos? Belarmino

Com o companheiro? Muitos

Têm pudor de ir até a fonte,

Pois a riqueza começa

No mar. Como

Pintores, eles recolhem

As belezas da terra sem

Desdenhar a guerra alada nem

A solidão, anos a fio, sob

O mastro sem folhas onde não transluzem

Na noite as festas da cidade

Com harpas e danças.

 

Mas agora, rumo à Índia,

Eis que os homens partiram.

Lá, no promontório ventoso,

Junto ao monte das vinhas, onde

Desce o Dordonha

E se une ao esplêndido Garona,

Ganhando largura de mar, o mar

Que dá a memória e a tira, assim

Como o amor detém os olhos diligentes.

O que fica, porém, é o que os poetas fundam.

 

Referência:

 

HÖLDERLIN, Friedrich. Andenken / Lembrança. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1991. Em alemão: p. 128 e 130; em português: p. 129 e 131.

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