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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 17 de janeiro de 2026

Anne Carson - O Nome de Deus

Segundo estes versos de Carson, Deus é menos um substantivo, um nome próprio, do que um advérbio – classe de palavras que modificam as ações –, o que conduz à ideia de que a palavra Deus diga muito mais sobre a forma como as coisas ocorrem, no núcleo mesmo de feitos e de experiências, do que sobre aquilo que se pode capturar – ou explicar – por intermédio da linguagem.

 

Nesse sentido, sendo mais corpórea do que conceitual, convida-nos o falante a uma compreensão visceral do Criador, mais do que puramente racional ou intelectual, bastando ver o teor do derradeiro verso, a instruir o leitor para que se disponha a capturar e a absorver as formas do eco divino no quotidiano, no movimento das formas, nos arranjos da natureza e no próprio corpo, numa prática que se poderia dizer algo distintiva do misticismo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Anne Carson

(n. 1950)

 

God’s Name

 

God had no name.

Isaac had two names.

Isaac was also called The Blind.

 

Inside the dark sky of his mind

Isaac could hear God

moving down a country road bordered by trees.

 

By the way the trees reflected off God

Isaac knew which ones were straight and tall

or when they carried their branches

 

as a body does its head

or why some crouched low to the ground in thickets.

To hear how God was moving through the universe

 

gave Isaac his question.

I could tell you his answer

but it wouldn’t help.

 

The name is not a noun.

It is an adverb.

Like the litde black notebooks that Beethoven carried

 

in his coatpocket

for the use of those who wished to converse

with him,

the God adverb

 

is a one-way street that goes everywhere you are.

No use telling you what it is.

Just chew it and rub it on.

 

(In the section “The Truth About God”)

 

A aparição de Deus a Isaac

(Rafael Sanzio: artista italiano)

 

O Nome de Deus

 

Deus não tinha nome.

Isaac tinha dois nomes.

Isaac também se chamava “O Cego”.

 

Dentro do céu escuro de sua mente,

Isaac conseguia ouvir Deus

a mover-se em uma via campestre ladeada

por árvores.

 

Pelo modo como as árvores refletiam Deus,

Isaac sabia quais eram esguias e altas,

ou quando carregavam os seus ramos

 

tal como um corpo sustenta a cabeça,

ou por que algumas se agachavam rente ao chão,

em moitas.

Ouvir como Deus estava a mover-se pelo universo

 

deu ensejo à pergunta de Isaac.

Poderia dizer-vos a resposta dele,

mas de nada adiantaria.

 

O nome não é um substantivo.

É um advérbio.

Como os pequenos cadernos negros que Beethoven

levava

 

no bolso do casaco

para uso daqueles que desejavam conversar com ele,

o advérbio “Deus”

 

é uma rua de mão única que vai para onde quer que

se esteja.

Não vale a pena dizer-vos o que é.

Apenas degustai-o e friccionai-o sobre a pele.

 

(Na seção “A Verdade Sobre Deus”)

 

Referência:

 

CARSON, Anne. God’s name. In: __________. Glass, irony and God. Introduction by Guy Davenport. New York, NY: New Directions, 1995. p. 43-44.

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