Segundo estes versos
de Carson, Deus é menos um substantivo, um nome próprio, do que um advérbio –
classe de palavras que modificam as ações –, o que conduz à ideia de que a
palavra Deus diga muito mais sobre a forma como as coisas ocorrem, no núcleo
mesmo de feitos e de experiências, do que sobre aquilo que se pode capturar –
ou explicar – por intermédio da linguagem.
Nesse sentido, sendo
mais corpórea do que conceitual, convida-nos o falante a uma compreensão visceral do Criador, mais do
que puramente racional ou intelectual, bastando ver o teor do derradeiro verso,
a instruir o leitor para que se disponha a capturar e a absorver as formas do
eco divino no quotidiano, no movimento das formas, nos arranjos da natureza e
no próprio corpo, numa prática que se poderia dizer algo distintiva do misticismo.
J.A.R. – H.C.
Anne Carson
(n. 1950)
God had no name.
Isaac had two names.
Isaac was also called The Blind.
Inside the dark sky of his mind
Isaac could hear God
moving down a country road bordered by trees.
By the way the trees reflected off God
Isaac knew which ones were straight and tall
or when they carried their branches
as a body does its head
or why some crouched low to the ground in thickets.
To hear how God was moving through the universe
gave Isaac his question.
I could tell you his answer
but it wouldn’t help.
The name is not a noun.
It is an adverb.
Like the litde black notebooks that Beethoven
carried
in his coatpocket
for the use of those who wished to converse
with him,
the God adverb
is a one-way street that goes everywhere you are.
No use telling you what it is.
Just chew it and rub it on.
(In the section “The
Truth About God”)
A aparição de Deus a
Isaac
(Rafael Sanzio:
artista italiano)
O Nome de Deus
Deus não tinha nome.
Isaac tinha dois
nomes.
Isaac também se
chamava “O Cego”.
Dentro do céu escuro
de sua mente,
Isaac conseguia ouvir
Deus
a mover-se em uma via
campestre ladeada
por árvores.
Pelo modo como as
árvores refletiam Deus,
Isaac sabia quais
eram esguias e altas,
ou quando carregavam
os seus ramos
tal como um corpo
sustenta a cabeça,
ou por que algumas se
agachavam rente ao chão,
em moitas.
Ouvir como Deus
estava a mover-se pelo universo
deu ensejo à pergunta
de Isaac.
Poderia dizer-vos a
resposta dele,
mas de nada
adiantaria.
O nome não é um
substantivo.
É um advérbio.
Como os pequenos
cadernos negros que Beethoven
levava
no bolso do casaco
para uso daqueles que
desejavam conversar com ele,
o advérbio “Deus”
é uma rua de mão única
que vai para onde quer que
se esteja.
Não vale a pena dizer-vos
o que é.
Apenas degustai-o e friccionai-o
sobre a pele.
(Na seção “A Verdade Sobre
Deus”)
Referência:
CARSON, Anne. God’s
name. In: __________. Glass, irony and God. Introduction by Guy
Davenport. New York, NY: New Directions, 1995. p. 43-44.
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