Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 6 de março de 2022

Robert Morgan - Trabalhando Sob Chuva

Há um país da chuva, por onde o pai do falante esteve a vaguear solitariamente, a bem dizer, em completa privacidade, levando a efeito os seus bucólicos afazeres em integração com a natureza: a perspectiva é de um adulto, refletindo sobre os modos como percebia, quando criança, o interesse do genitor em labutar sob as águas vindas dos céus.

 

O hábito do pai de levantar-se à primeira luz do dia para mourejar em favor dos seus levou-me a recordar o poema “Aqueles Domingos de Inverno”, de Robert Hayden, pois ambos os autores buscam manter viva a afeição que tinham por seus progenitores, os quais, cada um a seu modo, exibiam mediante o zelo pela família todo o amor de que eram capazes.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Morgan

(n. 1944)

 

 

Working in the Rain

 

My father loved more than anything to

work outside in wet weather. Beginning

at daylight he’d go out in dripping brush

to mow or pull weeds for hog and chickens.

First his shoulders got damp and the drops from

his hat ran down his back. When even his

armpits were soaked he came in to dry out

by the fire, making coffee, read a little.

But if the rain continued he’d soon be

restless, and go out to sharpen tools in

the shed or carry wood from the pile,

then open up a puddle to the drain,

working by steps back into the downpour.

 

I thought he sought the privacy of rain,

the one time no one was likely to be

out and he was left to the intimacy

of drops touching every leaf and tree in

the woods and the easy mutterings of

drip and runoff, the shine of pools behind

grass dams. He could not resist the long

ritual, the companionship and freedom

of falling weather, or even the cold

drenching, the heavy soak and chill of clothes

and sobbing of fingers and sacrifice

of shoes that earned a baking by the fire

and washed fatigue after the wandering

and loneliness in the country of rain.

 

Caubóis trabalhando sob chuva

(Ted Long: artista norte-americano)

 

Trabalhando Sob Chuva


Meu pai gostava mais do que tudo de

trabalhar ao ar livre sob tempo chuvoso. Começando

à luz do dia, saía em direção ao matagal

para cortar ou arrancar ervas daninhas para o porco

e as galinhas.

Primeiro seus ombros ficavam molhados e as gotas

do seu chapéu escorriam-lhe pelas costas. Quando até as

suas axilas estavam encharcadas, entrava para secar-se

junto ao fogo, fazer café e ler um pouco.

Mas se a chuva continuasse, logo ficaria

inquieto e sairia para afiar as ferramentas no

galpão ou transportar lenha da pilha,

depois abriria uma poça para o dreno,

trabalhando por etapas de volta ao aguaceiro.

 

Pensava eu que buscasse a privacidade da chuva,

a única oportunidade em que era improvável que alguém

saísse, deixando-o a sós na intimidade

das gotas que tocavam cada folha e árvore

nos bosques, os suaves murmúrios do

gotejo e da vazão, o brilho dos charcos por trás

das motas de grama. Ele não pôde resistir ao longo

ritual, ao companheirismo e à liberdade

de uma estação chuvosa, ou mesmo ao frio

empapamento, ao peso do encharco, às roupas álgidas,

ao soluçar dos dedos e ao sacrifício

dos sapatos – que ganhavam um desidrato junto ao fogo –,

e à ensopada fadiga após a vagueação

solitária pelo país da chuva.

 

Referência:

 

MORGAN, Robert. Working in the rain. In: KEILLOR, Garrison (Selector and Introducer). Good poems. New York, NY: Penguin Books, 2003. p. 373.

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