Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 28 de março de 2022

Mário Quintana - De Gramática e de Linguagem

A confrontar tudo aquilo que expresso mediante a linguagem – e então seria melhor reportar-se à “fala” humana –, com um outro mais passivo ou quieto, atinente a animais e plantas, encerrado em sua discrição “adjetivante”, Quintana sonha com poemas compostos por palavras “sumarentas”, carregadas de um sentido que se lhes pode apreender por mera absorção.

 

De se ver que a linguagem e a sua coirmã, a gramática, imbricam-se para formam o lógico e fecundo domínio por meio do qual se é capaz de decodificar a poesia. Mas um incidente intriga-me mais que tudo no poema de Quintana: por que a referência aos verbos é omitida, logo eles que são os principais agentes no vasto processo de (re)criação do mundo?!

 

Comentário por Fausto Cunha

(AZEVEDO FILHO, 1972, p. 135-136)

 

Eis um poema que, sendo bem à maneira de certa fase de Quintana, se presta para mais de uma classificação. Começa de certo modo como um poema didático (tudo indica que o título é uma alusão ao livro de estudos filológicos de Mário Barreto, gramático muito em voga nos colégios há trinta ou quarenta anos) e como tal se insere numa linha que passa também por Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, entre outros. Com a referência aos adjetivos, o poema entra num clima de arte poética – e o tom meio jocoso dos versos anteriores – cede lugar a um tom lírico: esse lirismo vai acentuar-se e definir-se nos versos finais. Toda a composição mostra como um poeta como Quintana, que parece visceralmente melancólico e introspectivo, é capaz – não só de um humour inteiramente desinibido, fio d’água que refresca perenemente a sua obra – é capaz de uma semiprosa objetiva, cortante, despojada de concessões românticas e ainda temperadas com certa mordacidade crítica. O poeta na sua “explicação das cousas”, utiliza uma linguagem coloquial e até expressões da gíria doméstica: “esticar a canela”. Veja-se o súbito contraste com um verso belo e “sério”, quase solene: “Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto”.

O poema tem início com um sintagma remissivo, “E havia...”, bastante frequente na inspiração rememorativa de um (tão justamente louvado) tradutor de Proust. Notar ainda que, depois de todos os versos impessoais que explicitam a citação inicial do gramático, o poeta se apresenta com sua própria arte poética numa anáfora – “Eu sonho...” / “Eu sonho...” – em que o eu acorda sensorialmente o tu da mulher amada, através de uma sucessão de metáforas gustativas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Mário Quintana

(1906-1994)

 

De Gramática e de Linguagem

 

E havia uma gramática que dizia assim:

“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica

Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta”.

Eu gosto é das cousas. As cousas, sim!...

As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso.

As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem

com ninguém.

Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre,

Ovo pode estar choco: é inquietante...)

As cousas vivem metidas com as suas cousas.

E não exigem nada.

Apenas que não as tirem do lugar onde estão.

E João pode neste mesmo instante vir bater

à nossa porta.

Para quê? não importa: João vem!

E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,

Amigo ou adverso... João só será definitivo

Quando esticar a canela. Morre, João ...

Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,

Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.

Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso.

Sonoro. Lento. Eu sonho

Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos

Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.

Ainda mais: eu sonho com um poema

Cujas palavras sumarentas escorram

Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,

Um poema que te mate de amor

Antes mesmo que tu lhe saibas o misterioso sentido:

Basta provares o seu gosto...

 

Em: “Novos Poemas” (1966)

 

Natureza-morta com ovos & vasilha de cobre

(Noah Verrier: pintor norte-americano)

 

Referência:

 

QUINTANA, Mário. De gramática e de linguagem. In: AZEVEDO FILHO, Leodegário A. de (Organização e Introdução Geral). Brasília, DF: Poetas do modernismo: antologia crítica. Vol. V. Ministério da Educação e Cultura / Instituto Nacional do Livro (MEC/INL), 1972. p. 135. (‘Coleção de Literatura Brasileira’; n. 9E)

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