Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 5 de março de 2022

Edith Sitwell - Canção de Rua

Tem-se aqui uma das “Street Songs” (“Canções de Rua”) redigidas pela excêntrica autora inglesa durante os anos da 2GM e, afinal, publicadas em 1942: a temática, por si só, já prenuncia algo de escatologicamente visionário, aglutinando imagens ou ideias que se abeiram e, logo então, se desobrigam, como se extraídas ao Zaratustra de Nietzsche e colacionadas nos versos para acomodarem um terceiro sentido, o qual, aliás, não se deixa desvelar por inteiro, embora se deduza nada auspicioso.

 

Certa comoção mortificadora impregna as linhas, tornando-as densas, muitas delas texturadas com exortações ao calor humano, no claro propósito de dar voltas a uma atmosfera ensombrecida e de sufocação, suscitada não meramente por causas externas – dada a realidade de conflito generalizado na Europa –, senão e principalmente por móbiles internos à voz lírica, sitiada, a meu ver, por um perceptível sentimento de solidão.

 

J.A.R. – H.C.

 

Edith Sitwell

(1887-1964)

 

Street Song

 

“Love my heart for an hour, but my bone for a day

At least the skeleton similes, for it has a morrow:

But the hearts of the young are now the dark treasure of Death

And summer is lonely.

 

Comfort the lonely light and the sun in its sorrow,

Come like the night, for terrible is the sun

As truth, and the dying light shows only the skeleton’s hum

For peace, under the like flesh the summer rose.

 

Come through the darkness of death, as once through

the branches

Of youth you came, through the shade like the flowering door

That leads into Paradise, far from the street, you, the unborn

City seen by the homeless, the night of the poor.

 

You walk in the city ways, where Man’s threatening shadow

Red-edged by the sun like Cain, has a changing shape

Elegant like the Skeleton, crouched like the Tiger,

With the age-old wisdom and aptness of the Ape.

 

The pulse that beats in the heart is changed to the hammer,

That sounds in the Potter’s Field. Where they build a

new world

From’ our Bone, and the carrion-bird days’foul droppings

and clamour –

But you are my nigth, and may peace –

 

The holy night of conception, of rest, the consoling

Darkness when all men are equal, – the wrong and the right,

And the rich and the poor are no longer separate nations,

They are brothers in night.”

 

This was the song I heard. But the Bone is silente!

Who knows if the sound was that of the dead light calling.

Of Caesar rolling onward his heart, that stone,

Or the burden of Atlas falling.

 

Músico de Rua

(Rui Carruço: artista português)

 

Canção de Rua

 

“Ama-me o coração por uma hora, mas meu osso por um dia...

O esqueleto pelo menos sorri, pois tem um amanhã:

Mas os corações dos jovens são agora o tesouro sombrio

da morte

E o verão é solitário.

 

Conforta a luz sozinha e o sol na sua mágoa,

Vem como a noite pois o sol é terrível

Como a verdade e a luz moribunda mostra apenas a

Fome que o esqueleto

Tem pela paz, por sob a carne como a rosa de verão.

 

Vem através da sombra da morte como antes por entre ramos

De juventude vieste, através da escuridão como um portal florido

Que leva ao paraíso, longe da rua – tu, cidade

Não nascida, entrevista pelos sem-lar, noite do pobre.

 

Caminhas pelas ruas onde a sombra ameaçadora do homem,

De margens rubras marcadas pelo sol como Caim, tem

forma variável,

Elegante como o Esqueleto, agachada como o Tigre,

Com a velha sabedoria e a eficiência do Macaco.

 

O pulso que bate no coração se transmuda em martelo

Que ressoa em Potters-Field onde erguem um novo mundo

Desde o nosso Osso e dos dias de urubus com malcheirosos

restos e clamores...

Mas tu és minha noite e minha paz,

 

A noite sagrada da concepção, do repouso, da escuridão

Consoladora em que os homens se igualam: o justo e o injusto.

O rico e o pobre; já não sendo nações separadas,

Eles são irmãos na noite.”

 

Esta foi a canção que eu ouvi; mas o Osso cala!

Quem sabe se o som era o da luz morta chamando,

Ou se era de César rolando sobre seu coração – aquela pedra –

Ou se era o peso de Atlas caindo?...

 

Referência:

 

SITWELL, Edith. Street song / Canção de rua. Tradução de Jorge Wanderley. In: In: WANDERLEY, Márcia Cavendish; FIALHO, Carlos Eduardo; CAVENDISH, Sueli (Orgs.). Do jeito delas: vozes femininas de língua inglesa. Traduções de Jorge Wanderley. Rio de Janeiro, RJ: 7Letras, 2008. Em inglês: p. 58 e 60; em português: p. 59 e 61.

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