Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 30 de março de 2022

Edward Dyer - Minha mente é para mim um reino

Nestas sextilhas do poeta inglês há um pouco de tudo o que se deslinda por meio da mente humana no ponto de equilíbrio: o viver de forma moderada, sem excessos, abandonando o supérfluo, em paz consigo mesmo e com os pares, numa perfeita alternância entre quietude e lide, sem fadigas para acumular patrimônio a qualquer custo.

 

Afinal, para Dyer, riqueza é sinônimo de “saúde e perfeito bem-estar” e não de posses, ânsia por acumular bens: aqueles que fazem de sua jornada um roteiro de cobiças “não vivem”, segundo o poeta, senão “definham” dia a dia, pois que submetem o espírito à inconstância do mundo fenomênico, afastando-se das ilimitadas possibilidades de uma visão mais interiorizada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Edward Dyer

(1543-1607)

 

My mind to me a kingdom is

 

My mind to me a kingdom is;

Such present joys therein I find,

That it excels all other bliss

That earth affords or grows by kind:

Though much I want that most would have,

Yet still my mind forbids to crave.

 

No princely pomp, no wealthy store,

No force to win the victory,

No wily wit to salve a sore,

No shape to feed a loving eye;

To none of these I yield as thrall;

For why? my mind doth serve for all.

 

I see how plenty surfeits oft,

And hasty climbers soon do fall;

I see that those which are aloft

Mishap doth threaten most of all:

They get with toil, they keep with fear:

Such cares my mind could never bear.

 

Content I live, this is my stay;

I seek no more than may suffice;

I press to bear no haughty sway;

Look, what I lack my mind supplies.

Lo, thus I triumph like a king,

Content with that my mind doth bring.

 

Some have too much, yet still do crave;

I little have, and seek no more.

They are but poor, though much they have,

And I am rich with little store;

They poor, I rich; they beg, I give;

They lack, I leave; they pine, I live.

 

I laugh not at another’s loss,

I grudge not at another’s gain;

No worldly waves my mind can toss;

My state at one doth still remain:

I fear no foe, I fawn no friend;

I loathe not life, nor dread my end.

 

Some weigh their pleasure by their lust,

Their wisdom by their rage of will;

Their treasure is their only trust,

A cloakèd craft their store of skill;       

But all the pleasure that I find

Is to maintain a quiet mind.

 

My wealth is health and perfect ease,

My conscience clear my chief defence;

I neither seek by bribes to please,

Nor by deceit to breed offence:

Thus do I live; thus will I die;

Would all did so as well as I!

 

Mente, corpo e alma

(Sanjay Halder: artista indiano)

 

Minha mente é para mim um reino

 

Minha mente é para mim um reino;

Tantas alegrias presentes nela encontro,

Que superam todas as demais venturas

Providas ou geradas em mercê pela terra;

Por mais que deseje o que teria a maioria,

Proíbe-me a mente de render-me à cobiça.

 

Nada de pompa principesca ou ricas provisões,

Nem forças para garantir vitórias,

Nem cérebro arguto para remediar mazelas,

Nem formas para nutrir olhares arrebatados;

A nada disso deixei-me subjugar em servidão,

Por que minha mente supre-me com tudo.

 

Vejo como a abundância desborda-se amiúde,

E os que rapidamente ascendem logo caem;

Vejo que aos que no alto se encontram

Os contratempos ameaçam mais que tudo:

Põem-se a trabalhar, habituam-se ao medo:

Tais encargos minha mente jamais suportaria.

 

Contente vivo, esta é minha paragem;

Não busco mais do que seja o suficiente;

Esforço-me para não externar soberbia;

Veja, minha mente supre o que me falta.

Perceba, assim eu triunfo como um rei,

Contente com o que minha mente me traz.

 

Alguns têm muito, todavia seguem a almejar;

Pouco tenho, e não estou ao encalço de mais.

Eles são pobres, ainda que de muito disponham,

E sou eu rico com limitadas provisões.

Eles pobres, eu rico; eles pedem, eu dou;

A eles falta, eu declino; eles definham, eu vivo.

 

Não rio das perdas dos outros;

Não me ressinto pelos ganhos alheios;

Não há ondas mundanas que abalem minha mente;

Meu estado de cordura ainda assim se mantém.

Não temo inimigos, não adulo amigos;

Não detesto a vida, nem receio meu fim.

 

Alguns avaliam o prazer pela sua luxúria,

A sabedoria pelo ardor de sua vontade;

Seus haveres são a sua única salvaguarda,

A arte do disfarce, sua reserva de talento:

Contudo, todo o prazer com que deparo

Origina-se de uma mente tranquila.

 

Minha riqueza é saúde e perfeito bem-estar,

A consciência limpa, minha principal defesa;

Não procuro agradar por meio de subornos,

Nem por astúcias engendrar ofensas.

Assim vivo; assim hei de morrer;

Quiçá assim todos agissem, tão bem quanto eu!

 

Referência:

 

DYER, Edward. My mind to me a kingdom is. In: JAGADISAN, S.; SARASWATHI, V. (Eds.). A thing of beauty: selections from english poetry. 1st publ. New Delhi, IN: Orient Longman, 2001. p. 1-2.

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