Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

T. S. Eliot - Versos de um Velho

A narrativa deste poema, saída dos lábios de um homem idoso, dá ciência aos leitores de que o ente lírico, em vez de ter o seu temperamento algo abrandado com o avançar da idade, tornou-se ainda mais áspero e menos tolerante – e até se deleita com isso, pouco se importando que em sua velhice se tenha transmutado num homem amargo ou acrimonioso.

Converter-se num velho ranzinza é maneira certa de trazer emoções negativas à baila, numa estação em que se deveria contemplar a vida a partir de recordações positivas: haverá, de fato, contentamento em submeter-se às degradantes ondas da amargura, comportando-se em sociedade como um animal indômito, feito um tigre ou uma serpente?!

J.A.R. – H.C.

 

T. S. Eliot

(1888-1965)

 

Lines for an Old Man

 

The tiger in the tiger-pit

Is not more irritable than I.

The whipping tail is not more still

Than when I smell the enemy

Writhing in the essential blood

Or dangling from the friendly tree.

When I lay bare the tooth of wit

The hissing over the arched tongue

Is more affectionate than hate,

More bitter than the love of youth,

And inaccessible by the young.

Reflected from my golden eye

The dullard knows that he is mad.

 

Tell me if I am not glad!

 

Homem sozinho

(Vladislav Trach: pintor russo)

 

Versos de um Velho

 

O tigre apanhado na armadilha

Não é mais irascível do que eu.

A cauda inquieta não está mais queda

Do que eu quando pressinto o inimigo

Contorcendo-se no sangue essencial

Ou pendendo da árvore amistosa.

Quando exponho o dente do siso

O silvo sobre a língua arqueada

É mais de afeto que de ódio.

Mais amargo que o amor de juventude,

E inacessível ao jovem.

Refletido por meu olho dourado

O obtuso sabe que é demente.

 

Digam-me se não estou contente!


Referência:

ELIOT, T. S. Line for an old man / Versos de um velho. Tradução de Lara Fernanda Teles. In: PAES, José Paulo (Organização, Nota Liminar e Posfácio). Transverso: coletânea de poemas traduzidos. Edição bilíngue. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1988. Em inglês: p. 76; em português: p. 77. (Coleção ‘Viagens da Voz’)

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