Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Sebastião Uchoa Leite - Antimétodo

O poeta pergunta-se se o desorientar-se num labirinto seria uma regra secreta a presidir as suas construções poéticas, um estado a abarcar o lado positivo e negativo de qualquer realidade tangível ou intangível, de sorte a circunscrever mesmo o reverso do método que emprega para “dar novos mundos ao mundo” – um antimétodo, portanto.

Seria ele como uma esfinge enigmática, um fingidor meio ao modo de Pessoa, alguém que foge de si mesmo como a um espantalho, num cenário de embaralhamento que se transverte em impeditivo para bem se caracterizar, nele, o que seja verdade ou farsa: o vate é essa realidade ambivalente, sem arestas definitivas, fingindo partir e não partir – embora partindo!

J.A.R. – H.C.

A mistura de registros associada a uma negatividade radical caracteriza a poesia desse escritor que compartilha com João Cabral de Melo Neto e com os poetas concretos o cerebralismo e o sentido da arquitetura − porém com doses mais ácidas de humor. Em Sebastião Uchoa Leite (que também foi tradutor e crítico de arte), a poesia começa como antipoesia, mais especificamente como linguagem antimetafórica e, por extensão, como gesto corrosivo contra a figura do poeta, do artista demiurgo, criador de mundos. Em “Fora Algumas Metáforas”, tirando aquilo que escapa ao lugar-comum das metaforizações, “nada é nada”, ou seja, resta um nada que é tudo: o nada é o niilismo do campo de concentração de Auschwitz, que só os códigos da desconstrução (uma atitude crítica em relação à linguagem que ele vê na poesia de Paul Celan e na filosofia de Theodor Adorno, ambos marcados pela experiência do nazismo) e essa sintaxe cheia de arestas (sua antilira) talvez possam representar. A arte se define assim pela “desenigmação”, que reaparece no poema “Um enigma de Ludwig” em que um episódio biográfico de Beethoven é narrado de modo prosaico, esvaziado de seu mistério. Trata-se, enfim, de um método que consiste em dissolver identidades e ideias feitas − ou melhor, de um “antimétodo", que é o título desses dois poemas em que Uchoa Leite submete a si mesmo (“sou meu próprio espantalho”) a esse exercício de corrosão, quebrando o segredo de sua regra secreta.
Principais Obras: Antologia (Achiamé, 1979), A uma Incógnita (Iluminuras, 1991), A Ficção Vida (Editora 34, 1993), A Espreita (Perspectiva, 2000), A Regra Secreta (Landy, 2002). (PINTO, 2006, p. 358)

Sebastião Uchôa Leite
(1935-2003)

Antimétodo

Desoriento-me
Sem qualquer
Método
Ou sem
Qualquer fim
Vou e não vou
Mas vou
Caio sem qualquer
Alarde
O que é
E não é: mas é
Desorientar-me
E meu antimédoto

Antimétodo 2

Pouco a pouco
Embaralho tudo e nada
Sou meu próprio
Espantalho
Fujo
De mim mesmo
Finjo-me
Da minha própria
Esfinge
Perdido em meu próprio
Labirinto
Sou o que sou
Ou minto? Será isso
Uma regra secreta?

Ambos em: “A Regra Secreta” (2002)

Édipo e a Esfinge
(Giorgio de Chirico: pintor italiano)

Referência:

LEITE, Sebastião Uchôa. Antimétodo / Antimétodo II. In: PINTO, Manuel da Costa (Seleção e organização). Antologia comentada da poesia brasileira do século 21. São Paulo, SP: Publifolha, 2006. p. 356-357.

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