Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Guilherme de Almeida - Esta Vida

Correntes específicas da filosofia e da religião mortificam-se pela pouca segurança e efemeridade da experiência de viver, um sopro intermitente em cujo transcurso suportam-se angústias, desesperos, sofrimentos, tristezas, dores, mais ingentes ainda quando resultantes das carências impostas pela pobreza, para tudo findar no mais absoluto olvido, como se jamais se houvesse caminhado sobre a terra.

Mas o poeta assegura que é o amor, mais que qualquer outra experiência que se tenha, a inspiração maior a permitir que se perceba o encanto de viver, esse não querer mais que bem querer (Camões), esse infinito apreço ainda que transitivo (Vinicius de Moraes), perante o qual a própria morte pode ser um ato a manifestá-lo: “não há amor maior que doar a vida pelo irmão” (João 15:13).

J.A.R. – H.C.

Guilherme de Almeida
(1890-1969)

Esta Vida

Um sábio me dizia: “Esta existência
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero, inventaria a morte!
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo: e vibra, e cresce,
e se desdobra, e estala num segundo...
Homem, eis o que somos neste mundo!”
Falou-me assim o sábio e eu comecei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: “Ó mocidade,
és relâmpago, ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa...
Esta vida não vale grande cousa:
− uma mulher que chora, um berço a um canto,
o riso às vezes, quase sempre o pranto...
Depois, o mundo, a luta que intimida...
Quatro círios acesos − eis a vida!”
Isto me disse o monge e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: “Para o pobre,
a vida é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus?... Eu não creio nessa fantasia!
Deus me dá fome e sede cada dia,
mas nunca me deu pão nem me deu água...
Nunca! Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar, de porta em porta, esfarrapado...
Deu-me esta vida: um pão envenenado!”
Disse-me isto o mendigo e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: “Vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo!
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira...
Um telhado... Um penacho de fumaça...
Cortinas muito brancas na vidraça...
Um canário que canta na gaiola...
− Que linda a vida lá por dentro rola!”
Pela primeira vez, eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver!

Autorretrato com Isabella Brandt,
sua primeira esposa,
em Honeysuckle Bower
(Peter Paul Rubens: pintor flamengo)

Referência:

ALMEIDA, Guilherme de. Esta vida. In: __________. Messidor. São Paulo, SP: Casa Editora ‘O Livro’, 1919. p. 153-154.

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