Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Nuno Júdice - A Penosa Descoberta

Aparentemente, Júdice metaforiza neste poema a situação da arte poética nas últimas décadas, quando se tornou uma forma de prazer estético – como bem o diria? – meio lateral, com poucos aficionados leitores, embora ainda com muitos “produtores”, esses poetas visionários que agregam atributos restauradores ali onde a realidade exibe a aridez capaz de levar ao tédio.

 

Mas pouco importa se a “demanda” por poesia esteja fadada a mirrar-se: tanto pior para quem não a conhece ou a desmerece, pois não usufruirá do poder de integração que ela comporta, permitindo-nos mais acerto em nossas valorações, mais precisão em nossos sentimentos e emoções devotados a apreciar o belo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Nuno Júdice

(n. 1949)

 

A Penosa Descoberta

 

“Poética”, disse ele, pousando o copo.

Posso não acreditar em nada, nem seguir

o barulho regular dos relógios, continuou

no mesmo tom de voz: a minha vida

aproxima-se do ideal poético superior.

Abriu a janela e recebeu na cara os ventos

do norte. Nada o impedia, agora,

do encontro com a solidão irremediável.

Pousou a bebida no parapeito, agarrou

com a mão direita um ramo de árvore e,

com a mão esquerda fechada no ar, disse

em voz alta: “Poética”, para que todos

ouvissem. No entanto, ao dar-se conta

de que estava só, em plena madrugada,

fechou a janela, fechou o livro que começara

a ler, na véspera, fechou a luz

– e à claridade baça e fria do inverno

sentou-se no chão de madeira, a pensar,

como se não houvesse mais ninguém

naquele mundo.

 

Em: “O Mecanismo Romântico

da Fragmentação” (1975)

 

O poeta à janela

(Tommie Olofsson: pintor sueco)

 

Referência:

 

JÚDICE, Nuno. A penosa descoberta. In: __________. Por dentro do fruto a chuva: antologia poética. Seleção, organização e prefácio de Vera Lúcia de Oliveira. São Paulo, SP: Escrituras, 2004. p. 31. (Coleção “Ponte Velha”)

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