Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Eduardo White - Não faz mal

Que poder de associação entre a poesia – vista aqui como um pássaro que, por óbvio, alça voos em qualquer altura – e o poema que a encerra nas palavras! Diz-nos o poeta moçambicano que não é justo encerrar um pássaro onde ele não possa voar, do que se deduz que o poema tem que ser capaz de, também, acompanhar os adejos da poesia.

E quando, numa atmosfera mágica, diáfana, poema e poesia conjugam-se em ritmo e melodia, para contemplar em imagens e metáforas outras tantas dimensões da realidade, então temos o supremo da “ars poetica”, a refletir toda a profundidade anímico-espiritual do ser humano.

J.A.R. – H.C.

Eduardo White
(1963-2014)

Não faz mal

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste.

Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.

E se o procurarmos? Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar. Algum sentimento o terá deixado pousar, partido com ele. Estará o verso conosco? Provavelmente apenas a parte que nos coube. Aquietemo-nos. Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.

Meninas com pássaro e gaiola
(James Sant: pintor inglês)

Referência:

WHITE, Eduardo. Não faz mal. In: DÁSKALOS, Maria Alexandre; APA, Livia; BARBEITOS, Arlindo (Orgs.). Poesia africana de língua portuguesa: antologia. Rio de Janeiro, RJ: Lacerda Editores, 2003. p. 244.

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