Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 4 de julho de 2017

Edwin Morgan - Espaço Translunar Março de 1972‎

Morgan, poeta escocês, emite críticas à forma como os norte-americanos levaram ao espaço, no interior da sonda interplanetária Pioneer-10, em meados de março de 1972, uma placa contendo informações da presença da espécie humana sobre o planeta Terra (vide abaixo).

Parece-lhe que a mensagem subliminar que emana da referida placa é que a mulher é um “tipo inferior da mesma espécie”, e somente o fato de ela estar sorrindo levemente, e o “americano desodorizado” ao seu lado ter uma expressão grave, poderia induzir algum trabalho às potenciais inteligências interplanetárias, destinatárias finais da precitada notícia.

J.A.R. – H.C.

Edwin Morgan
(1920-2010)

Translunar Space March 1972

The interior of Pioneer-10,
as it courses smoothly beyond the Moon
at 31,000 miles an hour,
is calm and full of instruments.
No crew for the two-year trip to Jupiter,
but in the middle of the picture
a gold plaque, six inches by nine,
remedies the omission. Against a diagram
of the planets and pulsars of our solar system and galaxy,
and superimposed on an outline of the spacecraft
in which they are not travelling
(and would not be as they are shown
even if they were) two quaint nude figures
face the camera. A deodorized American man
with apologetic genitals and no pubic hair
holds up a banana-like right hand
in Indian greeting, at his side a woman,
smaller, and also with no pubic hair,
is not allowed to hold up her hand,
stands with one leg off-centre, and
is obviously an inferior sort
of the same species. However,
the male chauvinist pig
has a sullen expression, and the woman
is faintly smiling, so
interplanetary intelligences may still have homework.
Meanwhile, on to the Red Spot,
Pluto, and eternity.

Placa fixada na Pioneer-10

Espaço Translunar Março de 1972

O interior da Pioneer-10,
no seu curso suave para além da Lua
a 31.000 milhas por hora,
é calmo e cheio de instrumentos.
Sem tripulação para a viagem de dois anos até Júpiter,
mas no meio do cenário
uma placa de ouro, de seis por nove polegadas,
remedia a omissão. Contra um diagrama
de planetas e pulsares do nosso sistema solar e galáxia,
e sobrepostas num contorno da nave espacial
na qual não estão viajando
(e não estariam como parecem
mesmo que estivessem) dois bizarros vultos nus
olham para a câmera. Um americano desodorizado
com genitais apologéticos e sem pelos púbicos
ergue a mão direita como uma banana
numa saudação indiana, do seu lado uma mulher,
menor, e também sem pelos púbicos,
é proibida de levantar sua mão,
fica em pé com uma perna afastada, e
obviamente é um tipo inferior
da mesma espécie. Entretanto,
o porco chauvinista
tem uma expressão grave, e a mulher
está sorrindo vagamente, assim
inteligências interplanetárias podem ainda ter trabalho.
Por enquanto, para frente rumo a Mancha Vermelha,
Plutão, e eternidade.

Referência:

MORGAN, Edwin. Translunar space march 1972 / Espaço translunar março de 1972. Tradução de Virna Vieira.In: __________. Na estação central. Seleção, tradução e introdução de Virna Vieira. Brasília, DF: Editora da UnB, 2006. Em inglês: 86 e 88; em português: 87 e 89. (Coleção “Poetas do Mundo”)

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