Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Robinson Jeffers - Véspera de Ano Novo

O ano está próximo da virada e um bêbado, num mundo à beira do caos, mesmo Deus presente em toda parte, vivencia o estupor de suas autoilusões, negligenciando-O, Ele que, na concepção do poeta, não é simbolizado por uma pomba, a exemplo do cristianismo, mas como um falcão!

Robinson era, é bom que se diga, um aficionado por falcões, pois com eles se acostumou ao se instalar na costa do Pacífico, a difundir o inumanismo, ou seja, o amor do homem pela natureza, em vez do homem pelo homem, o qual parecia-lhe uma espécie de incesto. Idiossincrasias do poeta: acrescentar o quê?!

J.A.R. – H.C.

Robinson Jeffers
(1887-1962)

New Year’s Eve

Staggering homeward between the stream and the trees the
unhappy drunkard
Babbles a woeful song and babbles
The end of the world, the moon’s like fired Troy in a flying
cloud, the storm
Rises again, the stream’s in flood.
The moon’s like the sack of Carthage, the Bastile’s broken,
pedlars and empires
Still deal in luxury, men sleep in prison.
Old Saturn thinks it was better in his grandsire’s time
but that’s from the brittle
Arteries, it neither betters nor worsens.
(Nobody knows my love the falcon.)
It has always bristled with phantoms, always factitious,
mildly absurd;
The organism, with no precipitous
Degeneration, slight imperceptible discounts of sense
and faculty,
Adapts itself to the culture-medium.
(Nobody crawls to the test-tube rim,
Nobody knows my love the falcon.)
The star’s on the mountain, the stream snoring in flood;
the brain-lit drunkard
Crosses midnight and stammers to bed.
The inhuman nobility of things, the ecstatic beauty, the
inveterate steadfastness
Uphold the four posts of the bed.
(Nobody knows my love the falcon.)

Gerifalte Branco
(Robert Bateman: pintor canadense)

Véspera de Ano Novo

Cambaleando de regresso à casa entre o riacho e as árvores o
infeliz bêbado
Balbucia uma canção angustiosa,
O fim do mundo, a lua é como Troia incendiada numa nuvem
flutuante, a tormenta
Acirra-se novamente, o riacho está a transbordar.
A lua é como o saque de Cartago, a queda da Bastilha,
mascates e impérios
Ainda negociam no luxo, homens dormem na prisão.
O velho Saturno imagina que tudo foi melhor na época
de seus antepassados, mas isso vem da fragilidade de suas
Artérias, nada melhora tampouco se agrava.
(Ninguém conhece o recebedor de meu afeto, o falcão)
Ele sempre arrepiado com fantasmas, sempre factícios,
ligeiramente absurdos;
O organismo, sem qualquer degeneração
Precipitada, leve redução imperceptível dos sentidos
e das faculdades,
Adapta-se à cultura do meio.
(Ninguém se arrasta até a borda do tubo de ensaio,
Ninguém conhece o recebedor de meu afeto, o falcão.)
A estrela ascende sobre a montanha, o riacho ressoa na enchente;
o bêbado de cérebro ligado
Cruza a meia-noite e tartamudeia em direção à cama.
A inumana nobreza das coisas, a beleza extática, a
constância inveterada
Guarnecem os quatro pés da cama.
(Ninguém conhece o recebedor de meu afeto, o falcão.)

Referência:

JEFFERS, Robinson. New year’s eve. In: __________. The selected poetry by Robinson Jeffers. 8th Printing. New York, NY: Random House, 1937. p. 595.


Nenhum comentário:

Postar um comentário