Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Maria do Sameiro Barroso - Poema de Natal

Uma forma de expressão alusiva, sem tanger imoderadamente os nomes próprios empregados durante a estação – já bastante desgastados por sua recorrência –, mas tão nitidamente natalina, ao contemplar a gênese primordial e as sequentes recriações induzidas pelo passar dos anos.

Assim apreciei o desenrolar e a beleza do poema abaixo, de autoria da poetisa portuguesa em epígrafe, recolhido à coletânea “Carne del Cielo” (“Carne do Céu”) – editada por Alfredo Pérez Alencart, poeta e ensaísta peruano-espanhol, e Luis Cruz-Villalobos, poeta e editor chileno –, e traduzido pelo primeiro ao espanhol.

Quanto ao original do poema de Barroso, encontrei-o no endereço eletrônico “O Banquete Poético”, aparentemente mantido pelo padre mineiro Antônio Damásio Rêgo Filho (digo “aparentemente” porque ali não há qualquer menção ao seu mantenedor), segundo algumas diligências que levei a curso na internet.

J.A.R. – H.C.

Maria do Sameiro Barroso
(n. 1951)

Poema de Natal

Os pensamentos galgam as montanhas, a escuridão
e o silêncio.
Nas mãos, sulcadas de violetas e de pássaros, há navios
e espuma que se afastam,
cavalos, liras e grinaldas que seguem a lua branca
de montanhas e de renas.

No húmus fecundo da terra,
as horas tornam-se antigas, celebrando as mãos,
o inverno, o solstício
entre harpas marinhas, corolas, cristais, leitos de giestas.
Um cântico de Natal ecoa.

O sangue negro das florestas desdobra a flor do âmbar,
os olhos abertos para a vida resumem o espaço,
possibilidade, respiração,
raiz secreta que se abre ao esplendor dos astros fulvos,
as mãos dando para o Eterno,
o céu e a púrpura espelhando as lareiras e o sol,
no seu fulgor de palavras inexactas, música primordial,
estendida na noite

que se desprende dos seus tálamos de estrelas.

Véspera de Natal
(Thomas Kinkade: pintor norte-americano)

Poema de Navidad

Los pensamientos saltan las montañas, la oscuridad
y el silencio.
En las manos, surcadas de violetas y de pájaros, hay barcos
y espumas que se alejan,
caballos, liras y guirnaldas que siguen la luna blanca
de montañas y de renos.

En el humus fecundo de la tierra,
las horas se vuelven antiguas, celebrando las manos,
el invierno, el solsticio
en arpas marinas, corolas, cristales, lechos de retamas.
Un cántico de Navidad resuena.

La negra sangre de los bosques despliega la flor del ámbar,
los ojos abiertos a la vida resumen el lugar,
posibilidad, respiración,
raíz secreta que se abre al esplendor de los astros pajizos,
las manos hacia lo Eterno,
el cielo y la púrpura espejeando en las laderas y el sol,
en su fulgor de palabras inconexas, música primordial
expandida en la noche

que se desprende de sus tálamos de estrellas.

Referências:

Em Português

BARROSO, Maria do Sameiro. Poema de Natal. Disponível neste endereço. Acesso em: 7 dez. 2016.

Em Espanhol

BARROSO, Maria do Sameiro. Poema de Navidad. Traducción de A. P. Alencart. In: ALENCART, A. P.; CRUZ-VILLALOBOS, Luis (Eds.). Carne del cielo: versos de navidad. Antología de poetas iberoamericanos de hoy. Pinturas de Miguel Elías. Santiago, CL: Hebel Ediciones, 2015. p. 84-85. Disponível neste endereço.


2 comentários:

  1. Obrigada pela sua sensibilidade e pela justeza da sua apreciação.
    Maria do Sameiro Barroso

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  2. Prezada Maria,

    De fato, sou eu a muito agradecer pelo poema, essa forma de criação que nos faz capazes de vislumbrar outras tantas realidades, conexões, possibilidades de interpretação para os diversos fatos da vida, a própria literatura aí inclusa.

    Afinal, ser poeta/poetisa – permita-me a digressão – é como ter o dom da hermenêutica para decifrar os sinais que aos olhos assomam...

    Um grande abraço,

    J. A. Rodrigues

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