Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Jaime Gil de Biedma - O jogo de fazer versos

Já se foram muitas postagens neste blog com criações metapoéticos, cada qual, à sua maneira, tentando definir ou conceituar o fazer poético, suas funções, suas formas de evidenciação, suas técnicas, seus efeitos, seus mistérios – se os há.

Eis aqui mais um: o poeta espanhol Biedma considera haver mais técnica que sentimento nesse “jogo de fazer versos”, nesse vício solitário no qual se adentra, no início, sem a malícia das criações plagiárias, mas que, em última instância, não passa da conjugação de vocação com algum trabalho.

J.A.R. – H.C.

Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)

El juego de hacer versos

El juego de hacer versos
– que no es un juego – es algo
parecido en principio
al placer solitario.

Con la primera muda,
en los años nostálgicos
de nuestra adolescencia,
a escribir empezamos.

Y son nuestros poemas
del todo imaginarios
– demasiado inexpertos,
ni siquiera plagiamos –

porque la Poesía
es un ángel abstracto
y, como todos ellos,
predispuesto a halagarnos.

El arte es otra cosa
distinta. El resultado
de mucha vocación
y un poco de trabajo.

Aprender a pensar
en renglones contados
– y no en los sentimientos
con que nos exaltábamos –,

tratar con el idioma
como si fuera mágico
es un buen ejercicio,
que llega a emborracharnos.

Luego está el instrumento
en su punto afinado:
la mejor poesía
es el verbo hecho tango.

Y los poemas son
un modo que adoptamos
para que nos entiendan
y que nos entendamos.

Lo que importa explicar
es la vida, los rasgos
de su filantropía,
las noches de sus sábados.

La manera que tiene
sobre todo en verano
de ser un paraíso.
aunque, de vez en cuando,

si alguna de esas noches
que las carga el diablo
uno piensa en la historia
de estos últimos años,

si piensa en esta vida
que nos hace pedazos
de madera podrida,
perdida en un naufragio,

la conciencia le pesa
– por estar intentando
persuadirse en secreto
de que aún es honrado.

El juego de hacer versos,
que no es un juego, es algo
que acaba pareciéndose
al vicio solitario.

En: “Moralidades” (1966)

Imersa na leitura: um retrato
de Sofia Kramskoya,
a esposa do pintor
(Ivan Kramskoi: pintor russo)

O jogo de fazer versos

O jogo de fazer versos
– que não é um jogo – é algo
parecido em princípio
ao prazer solitário.

Com a primeira muda,
nos anos nostálgicos
de nossa adolescência,
a escrever começamos.

E são nossos poemas
de todo imaginários
– demasiado inexpertos,
nem sequer plagiamos.

porque a Poesia
é um anjo abstrato
e, como todos eles,
predisposto a lisonjear-nos.

A arte é outra coisa
distinta. O resultado
de muita vocação
e um pouco de trabalho.

Aprender a pensar
em linhas contadas
– e não nos sentimentos
com que nos exaltávamos –

tratar com o idioma
como se fosse mágico
é um bom exercício,
que chega a inebriar-nos.

Logo está o instrumento
em seu ponto afinado:
a melhor poesia
é o verbo feito tango.

E os poemas são
um modo que adotamos
para que nos entendam
e que nos entendamos.

O que importa explicar
é a vida, os traços
de sua filantropia,
as noites de seus sábados.

A maneira que tem
sobretudo no verão
de ser um paraíso.
ainda que, vez por outra,

se alguma dessas noites
carregadas pelo diabo
alguém pensa na história
destes últimos anos,

se pensa nesta vida
que nos faz pedaços
de madeira apodrecida,
perdida num naufrágio,

pesa-lhe a consciência
– por estar tentando
persuadir-se em segredo
de que ainda é honrado.

O jogo de fazer versos,
que não é um  jogo, é algo
que acaba por se parecer
ao vício solitário.

Em: “Moralidades” (1966)

Referência:

BIEDMA, Jaime Gil de. El juego de hacer versos. In: VOUTSA, Styliani. Constantinos Cavafis y Jayme Gil de Biedma: dos poetas, una concepción vital y estética. 1. ed. Salamanca, ES: Ediciones Universidad de Salamanca, 2012. p. 256-258. (“Colección Vítor”; v. 316)

Nenhum comentário:

Postar um comentário