Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 24 de abril de 2016

Percy Bysshe Shelley - A Filosofia do Amor

Um dos ícones do romantismo inglês, Shelley sustenta neste seu poema o quanto a força do amor reflete os poderes da natureza, a alicerçar contínua conexão entre todos os seus elementos, tal como outro poeta inglês – John Donne – já o dissera: “nenhum homem é uma ilha!”.

Ora, pois: se a luz do sol abraça a terra, se o luar beija o mar, por que não teria o poeta o direito de que a sua amada venha ao seu encontro e o enlace bem apertado?! Ora, ora! Como afirmava o Tom Jobim: “é impossível ser feliz sozinho!”.

J.A.R. – H.C.

Percy Bysshe Shelley
(1792-1822)
Retrato de Alfred Clint

Love’s Philosophy

I

The fountains mingle with the river
And the rivers with the Ocean,
The winds of Heaven mix for ever
With a sweet emotion;
Nothing in the world is single;
All things by a law divine
In one spirit meet and mingle.
Why not I with thine? −

II

See the mountains kiss high Heaven
And the waves clasp one another;
No sister-flower would be forgiven
If it disdained its brother;
And the sunlight clasps the earth
And the moonbeams kiss the sea:
What is all this sweet work worth
If thou kiss not me?

Céu Enluarado
(Francine Henderson: pintora norte-americana)

A Filosofia do Amor

I

As fontes mesclam-se com o rio
E os rios com o Mar,
Ventos do Céu em mútuo rodopio
Em doce emocionar;
Nada no mundo é singular;
Tudo, da lei divina sob abrigo,
Num espírito se acha no mesclar,
Por que não eu contigo?

II

Mirem montanhas a beijar o Céu
E as ondas a se abraçar;
Qualquer flor-irmã estaria ao léu
Se seu irmão fosse desprezar,
E a luz do sol vem a terra abraçar
E os raios de luar osculam o mar
De que vale esse puro laborar
Se você não me beijar?

Referência:

SHELLEY, Percy Bysshe. Love’s philosophy / A filosofia do amor. Tradução de José Lino Grünewald In: GRÜNEWALD, José Lino (Organização e tradução). Grandes poetas da língua inglesa do século XIX. Edição bilíngue. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1988. Em inglês: p. 50; em português: p. 51. (“Poesia de Todos os Tempos”)
❁

sábado, 23 de abril de 2016

Miguel Sousa Tavares - A Pretexto do Brasil

Eis aqui uma análise externa sobre o atual momento político brasileiro, com negritos nossos, de autoria do jornalista e escritor português Miguel Sousa Tavares, publicado hoje, 23.4.2016, no “site” de notícias “Expresso”: nunca se viu tantas verdades sobre esta “grande pátria desimportante” em tão poucas linhas!

J.A.R. – H.C.

A Pretexto do Brasil
(Miguel de Sousa Tavares)


Não sei se os brasileiros terão a noção do que as oito horas de votação na Câmara de Deputados para destituir Dilma Rousseff tiveram de demolidor para a imagem do Brasil no mundo. Entre os povos livres e civilizados, a ideia que passou é que o Brasil é mesmo um país do Terceiro Mundo, onde a democracia é uma farsa e a classe política um grupo de malfeitores de onde está ausente qualquer vestígio de serviço público. Entre os países do verdadeiro Terceiro Mundo, alguns dos quais bastante mais bem governados do que o Brasil, a ideia do país como potencial líder do grupo dos emergentes caiu por terra com estrondo: perante aquele indecoroso espectáculo transmitido em directo para o país e para o mundo, as hipóteses de o Brasil alcançar o ambicionado lugar de membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas só podem ter sido seriamente comprometidas.

Não está em causa saber se Dilma governa mal ou bem: governa mal e devia sair pelo seu pé. Não está em causa se o PT esgotou o seu tempo e devia dar hipótese de nascença a um novo ciclo político: sim, devia, e Lula – a quem o Brasil tanto ficou a dever – faria bem melhor em remeter-se às palestras e nada mais. Já não está em causa sequer saber se há fundamento jurídico e constitucional para a demissão da Presidente: não há, o processo é puramente político e, nesse sentido, o impeachment é, de facto, um golpe, levado a cabo pelos derrotados das presidenciais. Mas em democracia os governos são julgados em eleições e ninguém tem culpa de que na absurda Constituição Brasileira, que tenta a fusão impossível entre o presidencialismo à americana e o governo à europeia, não existam as figuras da moção de censura ou de eleições antecipadas (uma lacuna que deriva directamente do igualmente absurdo sistema político que faz com que o Presidente e chefe de Governo nunca tenha maioria num Congresso onde convivem 26 partidos, mais uma série de fidelidades regionais e sectoriais). Com o pretexto arregimentado para destituir Dilma – as tais “pedaladas fiscais” – qualquer governo de qualquer democracia poderia ser substituído a qualquer momento, sem grande esforço. Mas exigia-se, pelo menos, que o processo de destituição da Presidente do Brasil tivesse um mínimo de dignidade e de seriedade que o gesto impunha. Mas não foi isso o que sucedeu e o que está a suceder: os chefes do “golpe”, todos a contas com a Justiça, são gente que de todo se recomenda; os seus apaniguados são tipos que não se convidam para jantar em casa; o partido que comanda o golpe e mais espera dele vir a beneficiar, o PMDB, é o exemplo acabado de tudo aquilo que a política não deveria ser; e o espectáculo protagonizado pelos deputados ultrapassou tudo o que a simples decência devia permitir. A mensagem que o Brasil passou ao mundo é esta: “Não nos levem a sério”.

A situação do Brasil – que tem provavelmente a pior classe política do mundo – remete-nos para uma questão de difícil opinião: são os povos que têm o que merecem ou há povos que têm um azar particular na escolha dos seus dirigentes? Em ditadura, é fácil de resolver a questão: o povo não escolhe. Mas em democracia, e embora o exemplo do Brasil seja extremo, é difícil acreditar na tese populista de que o povo é bestial, os políticos é que são todos uma nódoa. São os brasileiros que escolheram os políticos que têm e, entre tantos milhares de governantes, congressistas, governadores, prefeitos, deputados estaduais, dirigentes de empresas e organismos públicos, não é possível acreditar que, sendo a regra a corrupção, o caciquismo e a batota, tal não tenha que ver com as características fundamentais e estruturais de toda a sociedade brasileira. O grande problema do Brasil é um problema de educação cívica e política, da ausência de uma cultura de exigência e de responsabilidade no desempenho de funções públicas. E isso é vertical e transversal a toda a sociedade brasileira. E depois entram em jogo o populismo e a demagogia, que aqui encontram terreno fértil: habituados a que a regra do jogo seja a de serem eternamente mal governados, os brasileiros (tal como nós) já não distinguem uma má governação de uma governação difícil. Tendo interiorizado que todos os políticos são por natureza bandidos, o povo que desce às ruas acha que governar bem é sempre fácil: basta ser honesto e bem intencionado e logo a economia melhora e todos prosperam. O destino dos países e das nações seria assim apenas uma questão de boa-fé e de vontade: basta que os dirigentes o queiram, que se preocupem com o povo, e tudo se torna imediatamente melhor.
❁

John Milton - Sobre Sua Cegueira

Do mesmo autor da renomada obra “O Paraíso Perdido” (séc. XVII), John Milton, este soneto trata da perda de visão de que o poeta foi acometido, um fato lastimável para quem tem as letras como arte, circunstância que o tornou praticamente dependente de um terceiro, que lhe recolheu as palavras.

Semelhante ocorrência deu-se com o grande escritor argentino Jorge Luis Borges, que, com o avançar da idade, foi perdendo a visão, embora sempre mantendo intacta a lucidez do pensamento, como revelam os seus escritos mais tardios.

J.A.R. – H.C.

John Milton
(1608-1674)
(Gerard Vandergucht: pintor inglês)

On His Blindness
 
When I consider how my light is spent
Ere half my days in this dark world and wide,
And that one talent which is death to hide
Lodged with me useless, though my soul more bent

To serve therewith my Maker, and present
My true account, lest He returning chide
“Doth God exact day-labor, light denied?”
I fondly ask. But Patience, to prevent

That murmur, soon replies, “God doth not need
Either man’s work or his own gifts. Who best
Bear His mild yoke, they serve Him best. His state

Is kingly: thousands at His bidding speed,
And post o’er land and ocean without rest;
They also serve who only stand and wait.”

Refeição do Homem Cego
(Pablo Picasso: pintor espanhol)

Sobre Sua Cegueira

Medito: nem chegara ao meio a minha vida,
em vasto e negro mundo a luz tivera fim;
o Talento que é morte não usar, em mim
conservo-o ocioso, embora de alma resolvida

a pôr tal moeda de bons lucros acrescida,
para que Deus não zangue ao retornar enfim.
“Deus quer o labor diurno, e nega a luz assim?”   
– tolo indago, e a Paciência logo me revida:

“Deus não precisa nem da obra do homem nem
de Suas dádivas. Melhor O serve quem
melhor Lhe aguenta o suave jugo. O Seu estado

é régio: correm multidões ao Seu mandado
e não têm pouso quer na terra quer no mar:
também O servem os que ficam a esperar.”

Referência:

MILTON, John. On his blindness / Sobre sua cegueira. Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos. In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (Org.). Poetas de Inglaterra. Tradução e notas em colaboração com Paulo Vizioli. São Paulo, SP: Bandeirante S.A. Indústria Gráfica, 1970. Em inglês: p. 96; em português: p. 97. (“Poesia de Todos os Tempos”)
❁

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Alejandra Pizarnik - nesta noite, neste mundo

Mesmo as palavras têm o seu limite de significação, em relação a todo o espectro das emoções humanas, muitas das quais intraduzíveis em poemas ou outras manifestações da linguagem.

É do que nos procura convencer a poetisa argentina Pizarnik, neste seu primoroso poema. Escrito com perspicácia e sensibilidade, os sulcos que aos poucos ele firma na intelecção do leitor resulta exatamente no eterno questionamento sobre a prescindibilidade ou não da poesia...

J.A.R. – H.C.

Alejandra Pizarnik
(1936-1972)

en nesta noche, en este mundo

I

en nesta noche en este mundo
las palabras del sueño de la infancia de la muerte
nunca es eso lo que uno quiere decir
la lengua natal castra
la lengua es un órgano de conocimiento
del fracaso de todo poema
castrado por su propia lengua
que es el órgano de la re-creación
del re-conocimiento
pero no el de la resurrección
de algo a modo de negación
de mi horizonte de maldoror con su perro
y nada es promesa
entre lo decible
que equivale a mentir
(todo lo que se puede decir es mentira)
el resto es silencio
sólo que el silencio no existe

II

no
las palabras
no hacen el amor
hacen la ausencia
si digo agua ¿beberé?
si digo pan ¿comeré?

III

en esta noche en este mundo
extraordinario silencio el de esta noche
lo que pasa con el alma es que no se ve
lo que pasa con la mente es que no se ve
lo que pasa con el espíritu es que no se ve
¿de dónde viene esta conspiración de invisibilidades?
ninguna palabra es visible

sombras
recintos viscosos donde se oculta
la piedra de la locura
corredores negros
los he recorrido todos
¡oh quédate un poco más entre nosotros!

mi persona está herida
mi primera persona del singular

escribo como quien con un cuchillo alzado en la oscuridad
escribo como estoy diciendo
la sinceridad absoluta continuaría siendo
lo imposible
¡oh quédate un poco más entre nosotros!

IV

los deterioros de las palabras
deshabitando el palacio del lenguaje
el conocimiento entre la piernas
¿qué hiciste del don del sexo?
oh mis muertos
me los comí me atraganté
no puedo más de no poder más
palabras embozadas
todo se desliza
hacia la negra liquefacción

V

y el perro de maldoror
en esta noche en este mundo
donde todo es posible
salvo
el poema

VI

hablo en fácil hablo en difícil
sabiendo que no se trata de eso
siempre no se trata de eso
oh ayúdame a escribir el poema más prescindible
el que no sirva ni para
ser inservible
ayúdame a escribir palabras
en esta noche en este mundo

8 de octubre 1971

Pão e Água
(Hall Groat II: artista norte-americano)

nesta noite, neste mundo

A Martha Isabel Moia

I

nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância da morte
nunca é isso que alguém quer dizer
a língua natal castra
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo poema
castrado por sua própria língua
que é o órgão da re-criação
do re-conhecimento
porém não o da ressurreição
de algo a modo de negação
de meu horizonte de maldoror com seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(tudo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio
só que o silêncio não existe

II

não
as palavras
não fazem o amor
fazem a ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?

III

nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que se passa com a alma é o que não se vê
o que se passa com a mente é o que não se vê
o que se passa com o espírito é o que não se vê
de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura
corredores negros
os que tenho percorrido todos
oh fica-te um pouco mais entre nós!

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem ergue uma faca na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuará sendo
o impossível
oh fica-te um pouco mais entre nós!

IV

os desgastes das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
o que fizeste do dom do sexo?
oh meus mortos
eu os comi e me engasguei
não posso mais de não poder mais
palavras obstruídas
tudo se desliza
até a negra liquefação

V

e o cão de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

VI

falo no fácil falo no difícil
sabendo que não se trata disso
sempre não se trata disso
oh ajuda-me a escrever o poema mais prescindível
    o que não sirva nem para
    ser inservível
ajuda-me a escrever palavras
nesta noite neste mundo

8 de outubro de 1971

Referência:

PIZARNIK, Alejandra. en esta noche, en este mundo. In: BORDA, Juan Gustavo Cobo (Selección, prólogo y notas). Antología de la poesía hispanoamericana. 1. ed. México, DF: Fondo de Cultura Económica, 1985. p. 463-465. (Colección “Tierra Firme”)
❁

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Allen Ginsberg - Alojei-me no Inferno

O poeta norte-americano Allen Ginsberg dispensa comentários de apresentação. Por isso, passemos diretamente à avaliação do poema em epígrafe, transposto ao português em versão própria deste bloguinho: como se nota por intermédio de sua leitura, trata-se de soneto cujos termos ainda se encontram longe do poeta desbragado que conhecemos!

Afinal, ele foi extraído de uma de suas primeiras obras. Ainda assim, já se percebem experiências de vida e delineamentos linguísticos que viriam a se consolidar com o passar dos anos, em sua vasta obra poética.

J.A.R. – H.C.

Allen Ginsberg
(1926-1997)

I dwulled in Hell

After Reading Kerouac’s Manuscript
“The Town and the City”

I dwelled in Hell on earth to write this rhyme,
I live in stillness now, in living flame;
I witness Heaven in unholy time,
I room in the renowned city, am
Unknown. The fame I dwell in is not mine,
I would not have it. Angels in the air
Serenade my senses in delight.
Intelligence of poets, saints and fair
Characters converse with me all night.
But all the streets are burning everywhere.
The city is burning these multitudes that climb
Her buildings. Their inferno is the same
I scaled as a stupendous blazing stair.
They vanish as I look into the light.

(“Empty Mirror: Gates of Wrath” / 1947-1952)

Os Portões do Inferno
(Cornelis Saftleven: pintor holandês)

Alojei-me no Inferno

Depois da Leitura do Manuscrito de Kerouac
“Cidade pequena, cidade grande”

Alojei-me no Inferno sobre a terra para redigir esta rima,
Vivo agora em silêncio, em animada chama;
Dou testemunho do Céu neste tempo profano,
Ocupo um aposento em cidade de renome, sou
Desconhecido. Não é minha a fama de onde resido,
Eu não a teria. Anjos no ar
Cantarolam meus sentidos em deleite.
A inteligência dos poetas, santos e pessoas
Corretas conversam comigo noite adentro.
Mas todas as ruas estão ardendo onde quer que seja.
A cidade está abrasando essas multidões que escalam os
Seus edifícios. Seu inferno é o mesmo
Que escalei por meio de uma estupenda escada em chamas.
Elas desaparecem assim que diviso a luz.

(“Espelho Vazio: Portões da Ira” / 1947-1952)

Tradução de J. A. Rodrigues

Referência:

GINSBERG, Allen. I dwulled in hell. In: __________. Collected poems: 1947-1985. 2nd. ed. London, EN: Penguin Books, 1995. p. 5.
❁

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Brasil: centro do escárnio mundial!

Para quem interessar possa, no Brasil como em qualquer outra parte do mundo, temos aqui uma matéria da CNN, a mostrar como os norte-americanos veem o momento político no Brasil, de confronto à Democracia.

Chama a atenção o discurso em caminho muito diferente do que a grande mídia brasileira (Globo, Estadão, Folha de São Paulo, Veja, Isto é e Época) impingiu ao País nos dois últimos anos, em defesa de seus próprios interesses, ou melhor, de sua sobrevivência num cenário de internet aberta a todos! Uma mídia assim ninguém merece!

J.A.R. – H.C.
❁

Jean Racine - Phedra (Ato I / Cena III - Excerto)

Na parte final da cena III, de Phedra, peça do francês Jean Racine, a personagem homônima declara, ou melhor, confessa à sua ama, Œnone, os românticos sentimentos que cultiva por Hippolyto, seu enteado, muito distintamente do ódio que então se presumia.

Diversas são as figuras de linguagem empregadas, sobretudo na longa fala monologal de Phedra – um teste de memória para qualquer grande atriz!: de metonímias a hipérboles, de anáforas a metáforas. Tudo muito bem encapsulado num dilema moral, pois, como se nota, trata-se de um amor incestuoso. Um tabu, portanto!

J.A.R. – H.C.

Jean Racine
(1639-1699)

PHÈDRE
(Extrait)

(...)

Phèdre
Ariane, ma soeur! de quel amour blessée
Vous mourûtes aux bords où vous fûtes laissée!

Œnone
Madame, au nom des pleurs que pour vous j’ai versés,
Par vos faibles genoux que je tiens embrassés,
Délivrez mon esprit de ce funeste doute.

Phèdre
Tu le veux? lève-toi.

Œnone
Parlez: je vous écoute.

Phèdre
Ciel! que lui vais-je dire? et par où commencer?

Œnone
Par de vaines frayeurs cessez de m’offenser.

Phèdre
Ô haine de Vénus! Ô fatale colère!
Dans quels égarements l’amour jeta ma mère!

Œnone
Oublions-les, madame; et qu’à tout l’avenir
Un silence éternel cache ce souvenir.

Phèdre
Ariane, ma sœur! de quel amour blessée
Vous mourûtes aux bords où vous fûtes laissée!

Œnone
Que faites-vous, madame? et quel mortel ennui
Contre tout votre sang vous anime aujourd’hui?

Phèdre
Puisque Vénus le veut, de ce sang déplorable
Je péris la dernière et la plus misérable.

Œnone
Aimez-vous?

Phèdre
De l’amour j’ai toutes les fureurs.

Œnone
Pour qui?

Phèdre
Tu vas ouïr le comble des horreurs…
J’aime… À ce nom fatal, je tremble, je frissonne.
J’aime…

Œnone
Qui?

Phèdre
Tu connais ce fils de l’Amazone,
Ce prince si longtemps par moi-même opprimé…

Œnone
Hippolyte? Grands dieux!

Phèdre
C’est toi qui l’as nommé!

Œnone
Juste ciel! tout mon sang dans mes veines se glace!
Ô désespoir! ô crime! ô déplorable race!
Voyage infortuné! Rivage malheureux,
Fallait-il approcher de tes bords dangereux!

Phèdre
Mon mal vient de plus loin. À peine au fils d’Égée
Sous les lois de l’hymen je m’étais engagée,
Mon repos, mon bonheur semblait être affermi;
Athènes me montra mon superbe ennemi:
Je le vis, je rougis, je pâlis à sa vue;
Un trouble s’éleva dans mon âme éperdue;
Mes yeux ne voyaient plus, je ne pouvais parler;
Je sentis tout mon corps et transir et brûler:
Je reconnus Vénus et ses feux redoutables,
D’un sang qu’elle poursuit tourments inévitables!
Par des vœux assidus je crus les détourner:
Je lui bâtis un temple, et pris soin de l’orner;
De victimes moi-même à toute heure entourée,
Je cherchais dans leurs flancs ma raison égarée:
D’un incurable amour remèdes impuissants!
En vain sur les autels ma main brûlait l’encens!
Quand ma bouche implorait le nom de la déesse,
J’adorais Hippolyte; et, le voyant sans cesse,
Même au pied des autels que je faisais fumer,
J’offrais tout à ce dieu que je n’osais nommer.
Je l’évitais partout. Ô comble de misère!
Mes yeux le retrouvaient dans les traits de son père.
Contre moi-même enfin j’osai me révolter:
J’excitai mon courage à le persécuter.
Pour bannir l’ennemi dont j’étais idolâtre,
J’affectai les chagrins d’une injuste marâtre;
Je pressai son exil; et mes cris éternels
L’arrachèrent du sein et des bras paternels.
Je respirais, Œnone; et, depuis son absence,
Mes jours moins agités coulaient dans l’innocence:
Soumise à mon époux, et cachant mes ennuis,
De son fatal hymen je cultivais les fruits.
Vaines précautions! Cruelle destinée!
Par mon époux lui-même à Trézène amenée,
J’ai revu l’ennemi que j’avais éloigné:
Ma blessure trop vive aussitôt a saigné.
Ce n’est plus une ardeur dans mes veines cachée:
C’est Vénus tout entière à sa proie attachée.
J’ai conçu pour mon crime une juste terreur;
J’ai pris la vie en haine, et ma flamme en horreur;
Je voulais en mourant prendre soin de ma gloire,
Et dérober au jour une flamme si noire:
Je n’ai pu soutenir tes larmes, tes combats:
Je t’ai tout avoué; je ne m’en repens pas.
Pourvu que, de ma mort respectant les approches,
Tu ne m’affliges plus par d’injustes reproches,
Et que tes vains secours cessent de rappeler
Un reste de chaleur tout prêt à s’exhaler.

Phedra e Hippolyto
Gravura de Auguste Boucher Desnoyer
sobre pintura de Pierre-Narcisse Guérin
(artistas franceses)

PHEDRA
(Excerto)

(...)

Phedra
Ariadne, minha irmã! de que amor lacerada,
Morrestes sobre a borda onde fostes deixada!

Œnone
Senhora, que fazeis? qual é a mortal desdita,
Que contra o vosso sangue hoje assim vos incita?

Phedra
Já que Vênus o quer, de um sangue deplorável
Pereço a última, eu, como a mais miserável!

Œnone
Amais, então?

Phedra
Do amor tenho os fatais furores.

Œnone
Por quem?

Phedra
Logo hás de ouvir-me o cume dos horrores...
Amo... A esse nome tremo, o senso me abandona.
Amo...

Œnone
Quem?

Phedra
Ouve, pois! o filho da Amazona,
O príncipe banido, exilado por mim,..

Œnone
Hippolyto? altos céus!

Phedra
Nomeaste-o, é ele, sim!

Œnone
Deuses do céu! que golpe o seio me traspassa!
Oh desespero! oh crime! oh deplorável raça!
Viagem inditosa! ourela infortunada!
Porque viemos parar-te à borda malfadada!

Phedra
Meu mal de longe vem. Sob as leis do himeneu
Apenas eu me unira ao filho real de Egeu,
Minha felicidade e paz via ao abrigo;
Athenas me mostrou meu soberbo inimigo;
Vi-o, empalideci fiquei enrubescida;
Elevou-se um tumulto em minha alma perdida;
Fiquei sem ar, sem voz, não conseguia ver;
Senti se me transir o corpo todo e arder:
De Vênus percebi o fogo inexorável,
De um sangue que persegue angústia inevitável!
Com devoção assídua empenhei-me em contê-lo:
Edifiquei-lhe um templo e orná-lo foi meu zelo.
De vítimas rodeada, eu própria a todo instante
Buscava em flancos seus meu juízo vacilante:
De um incurável mal, fútil remédio, entanto!
É em vão que lhe queimava o incenso no altar santo!
Quando da deusa o nome imortal invocava,
Aos pés do altar fumante Hippolyto adorava,
E vendo-o sem cessar presente à minha face,
Tudo doava a esse deus, sem que nomeá-lo ousasse.
Fugi dele, evitava-o. Ah! que miséria infinda!
Nas feições de seu pai eu o encontrava ainda!
Insurgi-me, afinal, contra ele e contra mim:
E a persegui-lo, armei meus ânimos enfim.
Pra banir o inimigo idolatrado, a custo
De uma cruel madrasta afetei o ódio injusto.
Implorei seu exílio e meus brados eternos
Souberam arrancá-lo aos desvelos paternos.
Œnone, eu respirava, e, desde a sua ausência,
Decorria-me a vida em mais calma e inocência.
Submissa, ao meu esposo as mágoas ocultava,
E de um triste himeneu os frutos cultivava.
Vãs precauções! destino infausto! amarga pena!
Por meu próprio esposo aduzida a Trezena,
De Hippolyto revi o olhar e a fronte altiva:
Tornou logo a sangrar minha ferida viva.
Já não é incandescência oculta em mim acesa:
E Vênus, agarrada inteira à sua presa.
Concebi por meu crime o mais justo terror,
Criei fundo ódio à vida e ao meu desvaire horror;
Morrendo, ao menos quis resguardar minha fama,
E subtrair ao dia uma tão negra chama:
Não te aturei o pranto, e os teus transportes vendo,
Tudo te confessei. Aliás, não me arrependo
Se, honrando em mim da morte os próximos sinais,
Com tuas repreensões não me afligires mais,
E teu empenho vão deixar de insuflar vida
A uma luz expirante em breve consumida.

Personagens Presentes no Excerto:

Ariadne – irmã de Phedra;
Phedra – esposa de Theseu, filha de Minos e de Pasiphaé;
Hippolyto – filho de Theseu e de Antíope, rainha das Amazonas;
Œnone – ama e confidente de Phedra.

Referências:

Em Francês

RACINE, Jean. Phèdre (I. - Sc. III). In: SEGHERS, Pierre (Réuni, présenté et commenté). Le livre d’or de la poésie française: des origines a 1940. Verviers, BE: Marabout Université, 1972. p. 148-150.

Em Protuguês

RACINE, Jean. Phedra (Ato I - Cena III - Excerto). In: __________. Três tragédias: Phedra, Esther, Athália. Tradução de Jenny Klabin Segall. Prefácio de Roger Bastide. Rio de Janeiro, RJ: Edições de Ouro / Tecnoprint, 1965. p. 20-21.
❁