Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Anna Akhmátova - Sonho mais raramente com ele

Este poema de Akhmátova revela-se como uma ponte entre o íntimo e o histórico, pois a poetisa, para além de meramente escrever sobre um divórcio emocional, documenta, de fato, o momento em que o cataclismo pessoal – o fim de um caso de amor tempestuoso com o seu ex-cônjuge, Nikolái Gumilióv (1886-1921) – se entrelaça com um cataclismo histórico – a Revolução Russa de 1917.

 

O alívio de não mais sonhar com Gumilióv mistura-se, numa leitura superveniente, com a premonição do seu destino trágico (Gumilióv foi preso e executado pela Cheka, a polícia secreta soviética, em 1921) e a necessidade de forjar um “repouso congelado” que lhe permitisse, nos anos seguintes, tornar-se a cronista silenciosa e resiliente das agruras por que passou o povo russo.

 

A natureza e os símbolos religiosos – a névoa, os sinos, os monges – funcionam no poema como um mapa da alma nesse ponto de viragem, como se mediadores dessa transição fossem, oferecendo consolo e transcendência frente à ferida da memória conjugal, no exato instante em que a dor do amor se transforma em insensibilidade profética necessária para manter-se viva aos desenlaces da História.

 

J.A.R. – H.C.

 

Anna Akhmátova

(1889-1966)

 

Стал мне реже сниться

 

Стал мне реже сниться, слава богу,

Больше не мерещится везде.

Лег туман на белую дорогу,

Тени побежали по воде.

 

И весь день не замолкали звоны

Над простором вспаханной земли,

Здесь всего сильнее от Ионы

Колокольни Лаврские вдали.

 

Подстригаю на кустах сирени

Ветки те, что нынче отцвели;

По валам старинных укреплений

Два монаха медленно прошли.

 

Мир родной, понятный и телесный,

Для меня, незрячей, оживи.

Исцелил мне душу царь небесный

Ледяным покоем нелюбви.

 

Киев, 1912

В: “Бълая Стая” (1917)

 

Colhendo violetas

(János Thorma: pintor húngaro)

 

Sonho mais raramente com ele (*)

 

Sonho mais raramente com ele, graças a Deus,

já não imagino que o vejo em toda parte.

A névoa encobre a estrada embranquecida,

as sombras leves já fogem sobre a água.

 

O dia inteiro os sinos não pararam

de tocar sobre os campos bem arados.

Ainda mais altos são os do mosteiro

de São João que eu vejo lá longe.

 

No campo, vou colhendo as violetas

que ainda outro dia floresceram

e fico olhando aqueles dois monges

que passeiam pela antiga muralha.

 

Diante de meus olhos, que eram cegos,

ressurge concreto um mundo inteligível e familiar.

O Deus dos Céus cicatrizou minha alma

com a gélida calma da ausência do amor.

 

Kiev, 1912

Em: “Revoada Branca” (1917)

 

Nota do Tradutor:

 

(*). Neste poema, pertencente à fase da separação de Anna e Nikolái Gumilióv [seu ex-esposo], o mosteiro a que ela se refere é o de São João da Trindade, em Kiev. (AKHMÁTOVA, 2009, p. 165)

 

Referências:

 

Em Russo

 

АХМАТОВА, АННА. Стал мне реже сниться. In: __________. Стихотворения и поэмы. Вступительная статья А. А. Суркова. Составление, подготовка текста и примечания I В. М. Жирмунского. Ленинград, РУ: Издательство “Советский писатель”, 1976. с. 129-130.

 

Em Português

 

AKHMÁTOVA, Anna. Sonho mais raramente com ele. Tradução de Lauro Machado Coelho. In: __________. Antologia poética. Seleção, tradução do russo, apresentação e notas de Lauro Machado Coelho. 1. ed. na Coleção L&PM Pocket.  Porto Alegre, RS: L&PM, fev. 2009. p. 64. (L&PM Pocket; v. 751)

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