Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 1 de março de 2026

Cecília Meireles - Canção

Nesta melancólica canção, a poetisa carioca dá-nos conta de sua experiência de desencanto relacionada, decerto, aos muitos sonhos a que teve que renunciar, mediante um processo consciente e doloroso de deixá-los naufragar em meio às águas do mar da vida, restando subentendido no discurso certo esgotamento emocional para nutrir e sustentar algum sentido diante de um presumível vazio existencial.

 

A bem dizer, o poema permite múltiplos níveis de leitura: por um lado, pode-se interpretá-lo como uma exploração pessoal de algum desengano afetivo ou profissional; por outro, como uma reflexão mais ampla sobre a fragilidade dos desejos humanos, seus ideais e aspirações, frente ao inevitável sobrevir de algum nível de frustração por tudo quanto se deixou à margem ao longo do fluxo inexorável dos dias.

 

J.A.R. – H.C.

 

Cecília Meireles

(1901-1964)

 

Canção

 

Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

– depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre dos meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio...

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito:

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.

 

Em: “Viagem” (1939)

 

O barco de papel

(Kerry Darlington: artista galesa)

 

Referência:

 

MEIRELES, Cecília. Canção. In: __________. Antologia poética. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2001. p. 19.

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