Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 24 de maio de 2025

W. S. Merwin - Nos Campos Noturnos

Estes versos de Merwin reverberam certas palavras de Cristo em Mateus 4: 3-4, segundo as quais o homem precisa de muito mais do que saciar as suas necessidades físicas para encontrar um verdadeiro significado em sua existência. Nesse contexto, as necessidades espirituais do falante se lhe revelam como uma alternativa fiável de iluminação e de esperança para superar suas frustrações e perdas, os remorsos que o atormentam, as inquietudes ante a proximidade da morte.

 

O ente lírico parece renunciar ao direcionamento rígido e controlado dos seus dias, pois que tem, como corolário, o efeito de converter o próprio corpo em um objeto de penitência, haja vista que os seus passos não são uma sucessão invariável de acertos. Daí esse anelo por um clarão que rompa a escuridão ao meio, com potencial para suplantar a dicotomia entre o etéreo e o terrenal, entre o plano das idealidades e a sua realidade quotidiana.

 

J.A.R. – H.C.

 

W. S. Merwin

(1927-2019)

 

In the Night Fields

 

I heard the sparrows shouting “Eat, eat,”

And then the day dragged its carcass in back of the hill.

Slowly the tracks darkened.

 

The smoke rose steadily from no fires.

The old hunger, left in the old darkness,

Turned like a hanged knife.

I would have preferred a quiet life.

The bugs of regret began their services

Using my spine as a rosary. I left the maps

For the spiders.

Let’s go, I said.

 

Light of the heart,

The wheat had started lighting its lanterns,

And in every house in heaven there were lights waving

Hello good-bye. But that’s

Another life.

Snug on the crumbling earth

The old bottles lay dreaming of new wine.

I picked up my breast, which had gone out.

By other lights I go looking for yours

 

Through the standing harvest of my lost arrows.

Under the moon the shadow

Practices mowing. Not for me, I say,

Please not for my

Benefit. A man cannot live by bread

Alone.

 

Campos à noite

(Kristina Česonytė: pintora lituana)

 

Nos Campos Noturnos

 

Ouvi os pardais a gritar “Come, come”,

E logo o dia arrastou sua carcaça para trás da colina.

Lentamente as trilhas mergulharam na escuridão.

 

A fumaça subia incessantemente de nenhum fogo.

A velha fome, deixada na velha escuridão,

Revirou-se qual punhal dependurado.

De minha parte, teria preferido uma vida tranquila.

Os insetos do remorso deram início aos seus ofícios

Usando minha coluna como rosário. Deixei os mapas

Para as aranhas.

Vamos embora, eu disse.

 

 Luz do coração,

O trigo havia começado a acender suas lanternas,

E em todas as moradas do céu havia luzes a acenar

Um olá de despedida. Mais isso é

Outra vida.

Aninhadas na terra em ruínas,

As velhas botelhas jaziam sonhando com vinho novo.

Recolhi meu peito, que se havia apartado.

Por outras luzes busco o teu clarão

 

Através da sega perene de minhas flechas perdidas.

Sob o luar, a sombra

Consuma a ceifa. Não para mim, declino,

Por favor, não para o meu

Proveito.

Um homem não pode viver só

De pão.

 

Referência:

 

MERWIN, W. S. In the night fields. In: ENGLE, Paul; LANGLAND, Joseph (Eds.). Poet’s choice. New York, NY: The Dial Press, 1962. p. 258-259.

Nenhum comentário:

Postar um comentário