Estes versos de
Merwin reverberam certas palavras de Cristo em Mateus 4: 3-4, segundo as quais
o homem precisa de muito mais do que saciar as suas necessidades físicas para
encontrar um verdadeiro significado em sua existência. Nesse contexto, as
necessidades espirituais do falante se lhe revelam como uma alternativa fiável de
iluminação e de esperança para superar suas frustrações e perdas, os remorsos
que o atormentam, as inquietudes ante a proximidade da morte.
O ente lírico parece
renunciar ao direcionamento rígido e controlado dos seus dias, pois que tem, como
corolário, o efeito de converter o próprio corpo em um objeto de penitência,
haja vista que os seus passos não são uma sucessão invariável de acertos. Daí
esse anelo por um clarão que rompa a escuridão ao meio, com potencial para
suplantar a dicotomia entre o etéreo e o terrenal, entre o plano das idealidades
e a sua realidade quotidiana.
J.A.R. – H.C.
W. S. Merwin
(1927-2019)
In the Night Fields
I heard the sparrows
shouting “Eat, eat,”
And then the day dragged
its carcass in back of the hill.
Slowly the tracks
darkened.
The smoke rose
steadily from no fires.
The old hunger, left
in the old darkness,
Turned like a hanged
knife.
I would have
preferred a quiet life.
The bugs of regret
began their services
Using my spine as a
rosary. I left the maps
For the spiders.
Let’s go, I said.
Light of the heart,
The wheat had started
lighting its lanterns,
And in every house in
heaven there were lights waving
Hello good-bye. But
that’s
Another life.
Snug on the crumbling
earth
The old bottles lay
dreaming of new wine.
I picked up my
breast, which had gone out.
By other lights I go
looking for yours
Through the standing
harvest of my lost arrows.
Under the moon the
shadow
Practices mowing. Not
for me, I say,
Please not for my
Benefit. A man cannot
live by bread
Alone.
Campos à noite
(Kristina Česonytė: pintora lituana)
Nos Campos Noturnos
Ouvi os pardais a
gritar “Come, come”,
E logo o dia arrastou
sua carcaça para trás da colina.
Lentamente as trilhas
mergulharam na escuridão.
A fumaça subia
incessantemente de nenhum fogo.
A velha fome, deixada
na velha escuridão,
Revirou-se qual
punhal dependurado.
De minha parte, teria
preferido uma vida tranquila.
Os insetos do remorso
deram início aos seus ofícios
Usando minha coluna
como rosário. Deixei os mapas
Para as aranhas.
Vamos embora, eu
disse.
Luz do coração,
O trigo havia
começado a acender suas lanternas,
E em todas as moradas
do céu havia luzes a acenar
Um olá de despedida.
Mais isso é
Outra vida.
Aninhadas na terra em
ruínas,
As velhas botelhas
jaziam sonhando com vinho novo.
Recolhi meu peito,
que se havia apartado.
Por outras luzes
busco o teu clarão
Através da sega
perene de minhas flechas perdidas.
Sob o luar, a sombra
Consuma a ceifa. Não
para mim, declino,
Por favor, não para o
meu
Proveito.
Um homem não pode
viver só
De pão.
Referência:
MERWIN, W. S. In the night fields. In: ENGLE, Paul; LANGLAND, Joseph (Eds.). Poet’s choice. New York, NY: The Dial Press, 1962. p. 258-259.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário