Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 17 de maio de 2025

Eugénio de Andrade - As palavras interditas

Estes versos de Andrade capturam a complexidade das emoções humanas, imbricadas num tom sombrio de desilusões, desesperanças, melancolias, no qual se exploram temas como os mistérios do amor, a perda, a solidão, o diálogo entre amantes sitiado por desassossegos, a passagem do tempo, até mesmo os (metafóricos?) efeitos arrasadores de conflagrações, que tornam o cenário ainda mais desalentador: temos aqui, em suma, um compêndio das fragilidades e contradições derivadas da nossa inamovível condição de mortais.

 

Entre a tentação da partida e o desejo de permanência, a mente vacila, engolfada numa sensação de desorientação e, talvez, carência de propósitos: a vida se desenrola, assim, num fluxo deveras assintótico em relação aos ideais do falante, tornando-o prisioneiro de seus entraves – até que tudo imerja na escuridão plenária da noite.

 

J.A.R. – H.C.

 

Eugénio de Andrade

(1923-2005)

 

As palavras interditas

 

Os navios existem, e existe o teu rosto

encostado ao rosto dos navios.

Sem nenhum destino flutuam nas cidades,

partem no vento, regressam nos rios.

 

Na areia branca, onde o tempo começa,

uma criança passa de costas para o mar.

Anoitece. Não há dúvida, anoitece.

É preciso partir, é preciso ficar.

 

Os hospitais cobrem-se de cinza.

Ondas de sombra quebram-se nas esquinas.

Amo-te… E entram pela janela

as primeiras luzes das colinas.

 

As palavras que te envio são interditas

até, meu amor, pelo halo das searas;

se alguma regressasse, nem já reconhecia

o teu nome nas suas curvas claras.

 

Dói-me esta água, este ar que se respira,

dói-me esta solidão de pedra escura,

estas mãos noturnas onde aperto

os meus dias quebrados na cintura.

 

E a noite cresce apaixonadamente.

Nas suas margens nuas, desoladas,

cada homem tem apenas para dar

um horizonte de cidades bombardeadas.

 

Em: “As palavras interditas” (1951)

 

Menino às margens do rio

(Ghazi Toutounji: artista libanês)

 

Referência:

 

ANDRADE, Eugénio de. As palavras interditas. In: __________. Forbidden words: selected poetry of Eugénio de Andrade. Translated by Alexis Levitin. A bilingual edition: portuguese x english. 1st publ. New York, NY: New Directions, 2003. p. 24.

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