Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Gabriela Mistral - A Taça

Mistral nos fala de um dom que é o da palavra, encerrado numa taça dadivosa, exteriorização, em boa parte, daquilo que lhe vai na interioridade do ser, sabedoria por indícios e algo espontânea, a assomar feito “mentira” quando convertida em júbilo, levando-a a um estado de prostração – residência primaz da angústia e do medo.

 

É como se autora reconhecesse os limites da palavra e estivesse indo de encontro aos pilares do incomunicável: o dom, conteúdo do cálice, esbate-se com a ideia de totalidade, de memória, de imortalidade, mesmo porque essa “poção mágica” não se mostra capaz de todos os poderes, tampouco um vasto rol de ações conseguiria frustrar a irrefreável decantação da poeira dos tempos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gabriela Mistral

(1889-1957)

 

La Copa

 

Yo he llevado una copa

de una isla a otra isla sin despertar el agua.

Si la vertía, una sed traicionaba;

por una gota, el don era caduco;

perdida toda, el dueño lloraría.

 

No saludé las ciudades;

no dije elogio a su vuelo de torres,

no abrí los brazos en la gran Pirámide

ni fundé casa con corro de hijos.

 

Pero entregando la copa, yo dije

con el sol nuevo sobre mi garganta:

– “Mis brazos ya son libres como nubes sin dueño

y mi cuello se mece en la colina,

de la invitación de los vales”.

 

Mentira fue mi aleluya: miradme.

Yo tengo la vista caída a mis palmas;

camino lenta, sin diamante de agua;

callada voy, y no llevo tesoro,

¡y me tumba en el pecho y los pulsos

la sangre batida de angustia y de miedo!

 

En: “Tala” (1938)

 

Cerejas e Cálice de Prata

(Julian Merrow-Smith: pintor inglês)

 

A Taça

 

Eu conduzi uma taça

de uma ilha a outra ilha sem despertar água.

Se a derramasse, à sede atraiçoava;

por uma gota, o dom era caduco;

perdida toda, o dono choraria.

 

Não saudei as cidades;

não fiz o elogio do seu voo de torres,

não abri os braços na grande Pirâmide,

nem fundei casa com bando de filhos.

 

Mas, entregando a taça, eu disse:

[com o sol novo sobre minha garganta:](*)

– “Meus braços já são livres como nuvens sem dono,

e embala-se meu colo na colina,

ao convite dos vales”.

 

Mentira foi minha aleluia: vede-me.

Eu tenho caída sobre as mãos a vista;

caminho lenta, sem diamante de água;

calada vou, e não levo tesouro,

e me tomba no peito e nos pulsos

o sangue batido de angústia e de medo!

 

Em: “Abatimento” (1938)

 

Nota:

 

(*) Este verso, em tradução literal, de fato não consta na tradução de Aurélio Buarque de Holanda.

 

Referências:

 

Em Espanhol

 

MISTRAL, Gabriela. La copa. In: __________. Selected poems of Gabriela Mistral. A bilingual edition: spanish x english. Translated by Ursula K. Le Guin. 1st ed. Albuquerque, NM: University of New Mexico Press, 2003. p. 134.

 

Em Português

 

MISTRAL, Gabriela. A taça. Tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio; Brasília, DF: Instituto Nacional do Livro, 1979. p. 199.

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