Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 19 de março de 2024

Paul Verlaine - Homenagem devida

Verlaine reunia em si uma mixórdia de opostos, inclusive no que diz respeito ao sexo, diga-se mais explicitamente, eis que dividido entre heterossexualidade e homossexualidade – um “homoduplex”, como se autodenominava: seus poemas eróticos convergem, com semelhante volúpia, para o panegírico de ambos os gêneros.

 

Aqui, Verlaine vê no belo sexo da mulher a lira em cujas cordas – metáfora para as pregas vulvares – a “língua delira”, em clara alusão à prática do sexo oral, embora também se possa perceber a conexão da ideia ao próprio ofício da poética, quando se toma a palavra “língua” não em seu sentido literal, orgânico, senão em seu sentido expressivo, rítmico, a outorgar certa modulação ao poema, mais facilmente observável quando de sua récita.

 

J.A.R. – H.C.

 

Paul Verlaine

(1844-1896)

 

Hommage dû

 

Je suis couché tout de mon long sur son lit frais:

Il fait grand jour; c’est plus cochon, plus fait exprès

Par le prolongement dans la lumière crue

De la fête nocturne immensément crue

Pour la persévérance et la rage du cu

Et ce soin de se faire soi-même cocu.

Elle est à poil et s’accroupit sur mon visage

Pour se faire gamahucher, car je fus sage

Hier et c’est – bonne, elle, au-delà du penser? –

Sa royale façon de me récompenser.

Je dis royale, je devrais dire divine:

Ces fesses, chair sublime, alme peau, pulpe fine,

Galbe puissamment pur, blanc, riche, aux stries d’azur,

Cette raie au parfum bandatif, rose obscur,

Lente, grasse, et le puits d’amour, que dire sur!

Régal final, dessert du con, bouffé, délire

De ma langue harpant les plis comme une lyre!

Et ces fesses encor, telle une lune en deux

Quartiers, mystérieuse et joyeuse, où je veux

Dorénavant nicher mes rêves de poète

Et mon cœur de tendeur et mes rêves d’esthète!

Et, maîtresse, ou mieux, maître en silence obéi,

Elle trône sur moi, caudataire ébloui.

 

Sentada no rosto

(Helen Winter: artista russa)

 

Homenagem devida

 

Deito-me de comprido no seu leito morno.

A claridade do dia está mais de acordo

Com a ânsia obscena de prolongar, à luz crua,

O noturno festim, pois a luz acentua

O afinco, a fúria do nabo, e vai nisso tudo

Uma estranha vontade de fazer-se galhudo.

Nua em pelo, ela se agacha sobre o meu rosto

Para ser lambida: ontem me portei a gosto

E esta será (boa, ela, além do que pensa)

A minha paga, a minha real recompensa.

Eu disse real, devia dizer divina:

Nádegas de carne sublime e pele fina,

Branco, puro perfil de azuladas nervuras,

Sulco de intenso perfume, a rosa sombria,

Lenta, gorda, e o poço do amor, as iguarias!

Fim do festim, de sobremesa a cona, a lira

Em cujas pregas, cordas, a língua delira!

E essas nádegas ainda, lua de dois

Quartos, alegre e misteriosa, em que depois

Irei alojar os meus sonhos de poeta,

Meu terno coração e meus sonhos de esteta!

E amante, ou melhor, amo em silêncio obedecido,

Reina ela sobre mim, o seu servo rendido.

 

Referência:

 

VERLAINE, Paul. Hommage dû / Homenagem devida. Tradução de José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo (Seleção, tradução, introdução e notas). Poesia erótica em tradução. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2006. Em francês: p. 154; em português: p. 155.

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