Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Sebastián Salazar Bondy - Natal do ausente

O ente lírico é declaradamente o “ausente” do título deste poema, que “sempre retorna” à casa da família de onde proveio para as comemorações do Natal, muito embora, aparentemente, seja acolhido com certa impassibilidade – considerando que nenhum dos que estão à mesa volvem a cabeça para assistir à sua entrada no ambiente –, mas não por um alguém, não nomeado(a), que o recebe “alegremente”.

 

Trata-se do filho mais velho que vive e/ou trabalha a certa distância do presumido “ninho paterno”, um lar “feliz” muito a despeito da “penúria”. Ou será que todas as estâncias se reportariam a uma voz de alguém que já expirou e vive na memória dos que por aqui ficaram? Bem, “that is the question”, diria Shakespeare!

 

J.A.R. – H.C.

 

Sebastián Salazar Bondy

(1924-1965)

 

Navidad del ausente

 

Yo sé que allá, a esta hora, alguien

habrá desempolvado el pino pascual de la infancia

y encenderá las falsas estrellas de su copa.

Y sé que alguien bebe y oscila

al mortecino compás de un vals peruano

agitando el orden familiar de diciembre.

 

Estará servida la mesa y en torno a ella

las cabezas no se volverán para ver cómo llego

hasta el convite y tomo mi puesto de hijo mayor,

y canto, y me embriago, y rompo el silencio

con algo más ardiente que una tarjeta postal.

 

Les diré: “Feliz Navidad”, como si les dijera:

“Retorno siempre”, porque amo esa paciente quietud

donde el tiempo sin prisa labra pausadamente

la dicha en el envés oculto de la penuria.

 

Yo sé que allá, a esta hora, alguien

como un ave a mi encuentro remonta las distancias

y me recibe alegre, alegre.

 

En: “Los ojos del pródigo” (1950)

 

Sem título

(Carl Larsson: artista sueco)

 

Natal do ausente

 

Sei que mais adiante, a esta hora, alguém

terá espanado o pinheiro pascal da infância

e acenderá as falsas estrelas de sua copa.

E sei que alguém bebe e oscila

ao mortiço compasso de uma valsa peruana,

agitando a familiar ordem de dezembro.

 

A mesa estará servida e ao seu redor

as cabeças não se voltarão para ver como chego

ao banquete, e tomo meu posto de filho mais velho,

e canto, e me embriago, e rompo o silêncio

com algo mais ardente que um cartão postal.

 

Dir-lhes-ei: “Feliz Natal”, como se lhes dissesse:

“Retorno sempre”, porque amo essa paciente quietude,

onde o tempo sem pressa lavra, pausadamente,

a felicidade no lado oculto da penúria.

 

Sei que mais adiante, a esta hora, alguém,

como um pássaro ao meu encontro, supera as distâncias

e me recebe alegremente, alegremente.

 

Em: “Os olhos do pródigo” (1950)

 

Referência:

 

BONDY, Sebastián Salazar. Navidad del ausente. Sur, Buenos Aires (AR), nºs. 192-193-194, oct.-nov.-dic. de 1950, p. 137.


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