Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 11 de dezembro de 2022

Jacint Verdaguer - À beira-mar

O poeta catalão, também sacerdote católico, contempla melancolicamente a beira-mar a partir do cimo de um promontório e lhe dedica estas quadras, algo conforme às representações de um mundo efêmero, que, como o mar, mostra-se indômito ao dissipar, inapelavelmente, castelos ou versos que venham a ser arquitetados em suas areias.

 

Certo matiz premonitório ou pressagiador salta do poema de Verdaguer, em especial de suas últimas estrofes, nas quais o poeta pondera sobre o que do coração ou da vida as ondas carregam consigo em seu infindável fluxo e refluxo, matutando sobre o inexorável dia em que o tempo há de o levar ao fundo, quando então – quem sabe? – poderá redigir com estrelas outros tantos versos nas “singelas páginas” da “praia do mar dos céus”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jacint Verdaguer

(1845-1902)

  

Vora la mar

 

Al cim d’un promontori que domina

les ones de la mar,

quan l’astre rei cap a ponent declina

me’n pujo a meditar.

 

Amb la claror d’aqueixa llàntia encesa

contemplo mon no-res;

contemplo el mar i el cel, i llur grandesa

m’aixafa com un pes.

 

Eixes ones, mirall de les estrelles,

me guarden tants records,

que em plau reveure tot sovint en elles

mos somnis que són morts.

 

Aixequí tants castells en eixes ribes

que m’ha aterrat lo vent,

amb ses torres i cúpules altives

de vori, d’or i argent:

 

poemes, ai!, que foren una estona

joguina d’infantons,

petxines que un instant surten de l’ona

per retornar al fons;

 

vaixells que amb veles i aparell s’ensorren

en un matí de maig,

illetes d’or que naixen i s’esborren

del sol al primer raig;

 

idees que m’acurcen l’existència

duent-se’n ma escalfor,

com rufagada que se’n du amb l’essència

l’emmusteïda flor.

 

A la vida o al cor quelcom li prenen

les ones que se’n van;

si no tinc res, les ones que ara vénen,

dieu-me, què voldran?

 

Amb les del mar o amb les del temps un dia

tinc de rodar al fons;

per què, per què, enganyosa poesia,

m’ensenyes de fer mons?

 

Per què escriure més versos en l’arena?

Platja del mar dels cels,

quan serà que en ta pàgina serena

los escriuré amb estels?

 

Caldetes, 10 de gener 1883

  

A longa jornada para casa

(Mason Archie: pintor norte-americano)

 

À beira-mar

 

No alto de um promontório que domina

as ondas desse mar,

quando ao poente o astro rei declina

me ponho a meditar.

 

Com o esplendor daquela luz acesa

contemplo o meu não-ser;

contemplo o mar e o céu, e sua grandeza

esmaga meu poder.

 

Ondas a me guardar tantas lembranças

(espelho de estrelas),

que aos meus sonhos já mortos não me cansa

observar entre elas.

 

Tantos castelos nesta praia alcei

que o vento pôs um fim,

com cúpulas e torres altaneiras

de ouro, prata e marfim:

 

poemas, ai!, que por um tempo foram

qual jogos de azar,

conchinhas que um instante vêm pra fora

para ao fundo voltar;

 

barcos com suas velas que naufragam

numa manhã de maio,

ilhas de ouro que nascem e se apagam

vindo o primeiro raio;

 

ideias que me encurtam a existência

roubando-me o calor;

qual lufada que leva com a essência

a ressecada flor.

 

Do coração ou da vida, algo tomam

as ondas que se vão;

se nada tenho, as ondas que ora assomam

que querem, me dirão?

 

Com as do mar ou as do tempo um dia

hei de rodar ao fundo;

por que, por que, enganosa poesia,

me ensinas fazer mundos?

 

Por que escrever nas areias os versos meus?

Quando em tuas singelas

páginas, ó praia do mar dos céus,

os farei com estrelas?

 

Caldetes, 10 de janeiro de 1883

 

Referência:


VERDAGUER, Jacint. Vora la mar / À beira-mar. Tradução de Fábio Aristimunho Vargas. In: VARGAS, Fábio Aristimunho (Organização e tradução). Poesia catalã: das origens à guerra civil. São Paulo, SP: Hedra, 2009. Em catalão: p. 79-80; em português: p. 78-79.

Nenhum comentário:

Postar um comentário