Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Joan Salvat-Papasseit - Natal

O poeta catalão resenha em seus versos um Natal frugal, digo melhor, o vivenciado em meio à pobreza, diante da qual, Cristo quando nascer, haverá de se contristar: a mirada sobre os fatos transmigra do âmbito externo – onde muitos acorrem barulhentamente ao mercado, um carrinho carregado com aipo aí incluso –, para o interno à residência onde se encontra o falante e outros, a devorarem um frango à mesa.

 

Exterior e interior contrastam identicamente na temperatura de cada ambiente, fria na noite que se passa lá fora, mas tépida na cozinha, onde o braseiro “arde à luz do gás aceso”. No mais, a consciência atormentada dos que, reconhecendo-se pobres, deveriam ser mais solidários ao choro de uma criança também nascida em estado de necessidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Joan Salvat-Papasseit

(1894-1924)

 

Nadal

 

A Emili Badiella

 

Sento el fred de la nit

i la simbomba fosca.

Així el grup d’homes joves que ara passa cantant.

Sento el carro dels apis

que l’empedrat recolza

i els altres qui l’avencen, tots d’adreça al mercat.

 

Els de casa        a la cuina

prop del braser que crema

amb el gas tot encès han enllestit el gall.

Ara esguardo la lluna, que m’apar lluna plena;

i ells recullen les plomes,

i ja enyoren demà.

 

Demà posats a taula oblidarem els pobres

– i tan pobres com som –

Jesús ja serà nat.

Ens mirarà un moment a l’hora de les postres

i després de mirar-nos        arrencarà a plorar.

 

Véspera de Natal em Copenhagen

(Erik Ludwig Henningsen: pinor dinamarquês)

 

Natal

 

A Emili Badiella

 

Eu sinto o frio da noite

e a zabumba escura.

Tal o grupo de jovens que ora passa cantando.

Ouço o carro de aipo

que roda na calçada

e os outros que avançam, todos rumo ao mercado.

 

Na cozinha,        os de casa,

junto ao braseiro que arde

à luz do gás aceso, deram cabo do frango.

Contemplo agora a lua, parece lua cheia;

e eles juntam as penas,

pensando em amanhã.

 

Amanhã nós aos pobres à mesa esqueceremos

– tão pobres quanto somos –

Jesus terá nascido.

Na hora da sobremesa nos olhará um momento.

e depois de olhar-nos        desatará a chorar.

 

Referência:

 

SALVAT-PAPASSEIT, Joan. Nadal / Natal. Tradução de Fábio Aristimunho Vargas. In: VARGAS, Fábio Aristimunho (Organização e tradução). Poesia catalã: das origens à guerra civil. São Paulo, SP: Hedra, 2009. Em catalão e em português: p. 93.


Um comentário:

  1. Adendo à postagem pelo mantenedor do blog, para fazer constar, aqui, uma outra tradução ao poema, inserta na obra cuja referência vai ao final:

    Natal

    (A Emili Badiella)

    Sinto o frio da noite
    e ouço a zabumba,
    e um grupo de rapazes que passa agora cantando.
    Escuto a carroça do aipo
    sobre o calçamento,
    e os outros que avançam, todos em direção ao mercado.
    Os de casa, na cozinha,
    sob a luz da lamparina, preparam o galo.
    Contemplo agora a lua, que me parece lua cheia;
    eles recolhem as penas,
    e já pensam no amanhã.
    Amanhã, à mesa, esqueceremos dos pobres
    – tão pobres como nós –
    Jesus já terá nascido.
    Olhará por um momento, na hora da sobremesa,
    e depois de nos olhar, começará a chorar.

    SALVAT-PAPASSEIT, Joan. Natal. Tradução de Vanderley Mendonça. In: MENDONÇA, Vanderley (Ed.). Lira argenta: poesia em tradução. São Paulo, SP: Selo Demônio Negro, 2017. p. 65.

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