Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Michel de Montaigne - Da Idade (Excerto)

O pensador francês afirma, no excerto abaixo, extraído ao pequeno ensaio “Da Idade”, que a maioria dos homens têm as suas faculdades físicas e espirituais “atrofiadas” depois dos 30 anos, em linha com o declínio da “vivacidade, da rapidez e da firmeza de ânimo”: guardadas as proporções, devidas à melhora da média na qualidade de vida entre as nações e, por consequência, da expectativa de vida do ser humano – que poderia elevar em alguns anos tal idade –, ousaria declinar uma réplica que seja ao grande filósofo gaulês.

 

Seria o caso de Michelangelo Buonarotti (1475-1564), que, como se vê, viveu 89 anos e até quando Montaigne contava 31: sabe-se que o artista italiano pintou a Capela Sistina dos 33 aos 36 anos, esculpiu Moisés dos 38 aos 40, pintou a cena do Juízo Final, na parede atrás do altar da mesma Capela Sistina, dos 59 aos 66 anos, sendo ainda, em suas últimas décadas de vida, arquiteto destacado para grandes obras, entre elas, a Basílica de São Pedro.

 

O fato é que os exemplos são tantos, desde a época em que o sábio francês declinou suas percepções sobre o tema da idade, e em diversas áreas de atuação – na medicina, na arte poética, na ciência, na arquitetura (tenha-se presente o exemplo de Oscar Niemeyer [1907-2012], muito atuante em seus projetos até quase já centenário) – etc., que o juízo de Montaigne poderia enfrentar, nos dias correntes, forte objeção de incontáveis contestatários.

 

J.A.R. – H.C.

 

Michel de Montaigne

(1533-1592)

Retrato de autoria anônima

 

Livro Primeiro

Capítulo LVII

Da Idade

(Excerto)

 

Penso que, em sua maioria, as mais belas ações que conheço, deste século ou dos séculos passados, foram praticadas antes dos trinta anos e não depois; e isso às vezes pelo mesmo indivíduo. Não o podemos assegurar, por exemplo, quanto às de Aníbal e Cipião, seu grande inimigo? Viveram ambos a mais bela metade da vida da glória que granjearam na juventude. Posteriormente, se os comparamos aos outros, ainda são grandes homens; não, porém, se os comparamos a eles mesmos. Quanto a mim, creio ser evidente que meu espírito e meu físico antes diminuíram, depois, dessa idade, do que aumentaram em forças e lucidez; antes retrocederam do que progrediram. É possível que o saber e a experiência cresçam com os anos em quem emprega bem seu tempo; mas a vivacidade, a rapidez, a firmeza de ânimo e as demais partes físicas ou morais, integrantes de nós mesmos, as mais importantes e essenciais se desgastam e se atrofiam: “quando o corpo se abate ao peso dos anos, e as molas da máquina estão usadas, oblitera-se a inteligência, obscurece-se o espírito, delira a língua” (*).

 

Dois velhos em contenda

(Rembrandt H. van Rijn: pintor holandês)

 

Nota:

 

(*). Citação de pensamento de Lucrécio (~94 a.C. – ~50 a.C.), filósofo e poeta romano.

 

Referência:

 

MONTAIGNE, Michel de. Capítulo LVII: Da idade (excerto). Tradução de Sérgio Milliet. In: __________. Ensaios: Vol. I, Livro Primeiro. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo, SP: Nova Cultural, 2004. p. 287.

Um comentário:

  1. Muito interessante este post.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

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