Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Alda Lara - Testamento

A poetisa portuguesa de origem angolana, parecendo prever o que a vida haveria de lhe reservar – a morte prematura –, redige o seu testamento em forma de poema, legando os seus bens, quais sejam, brincos, vestido de noiva, livros e poemas, respectivamente, à mais jovem prostituta do bairro, a uma rapariga virgem, ao amigo desprovido de fé, aos humildes homens desletrados e ao seu companheiro.

 

A falante sugere ainda ao parceiro que, quando vier a lhe assaltar a memória depois de morta, ofereça às crianças os poemas que escrevera, poemas de “dor sincera e desordenada”, “de esperança desesperada, mas firme”, dir-se-ia com outras palavras, a vida como ela é: caminho de ventura para uns, vereda de atribulações para outros – como a própria poetisa.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alda Lara

(1930-1962)

 

Testamento

 

À prostituta mais nova

do bairro mais velho e escuro,

deixo os meus brincos, lavrados

em cristal, límpido e puro...

 

E àquela virgem esquecida

rapariga sem ternura,

sonhando algures uma lenda,

deixo o meu vestido branco,

o meu vestido de noiva,

todo tecido de renda...

 

Este meu rosário antigo

ofereço-o àquele amigo

que não acredita em Deus...

 

E os livros, rosários meus

das contas de outro sofrer,

são para os homens humildes,

que nunca souberam ler.

 

Quanto aos meus poemas loucos,

esses, que são de dor

sincera e desordenada...

esses, que são de esperança,

desesperada mas firme,

deixo-os a ti, meu amor...

 

Para que, na paz da hora,

em que a minha alma venha

beijar de longe os teus olhos,

 

vás por essa noite fora...

com passos feitos de lua,

oferecê-los às crianças

que encontrares em cada rua...

 

Gravura de autoria desconhecida 

 

Referência:

 

LARA, Alda. Testamento. In: DÁSKALOS, Maria Alexandre; APA, Livia; BARBEITOS, Arlindo (Eds.). Poesia africana de língua portuguesa: antologia. Rio de Janeiro, RJ: Lacerda Editores, 2003. p. 67-68.

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