Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Rita Dove - Ö

Ao se pronunciar o “Ö” do idioma sueco, semelhante a “ilha” no inglês, os lábios imitam a própria forma do trema, sugerindo à poetisa um exercício de imaginação transcultural, pejado de conotações infundidas por essa simples palavra, a servir de alavanca para um mundo que se descola do domínio “espaço x tempo”, digo melhor, da realidade física à volta, fazendo flutuar um bairro inteiro sob as imagens que se fixam à mente, quando se pensa no país escandinavo.  

 

Com efeito, a falante se reporta a uma família sueca que passou a residir na “casa amarela da esquina” – um verdadeiro “galeão encalhado em flores” –, levando-a a expandir umbraticamente o presente e o futuro, bulidos por “ventos” ou “brisas”, em companhia de “cardeais dispersos” – pássaros canoros de crista brilhante e vermelha, muito comuns em terras americanas.

 

Poder-se-ia atribuir ao poema algum matiz a dizer respeito ao próprio processo de integração de imigrantes na sociedade norte-americana, pois que, longe de casa – entenda-se, sua pátria –, tendem a manter certos traços identitários, muito afeitos a serem interpretados como vínculos que os unem numa espécie de lar gentílico.

 

J.A.R. – H.C.

 

Rita Dove

(n. 1952)

 

Ö

 

Shape the lips to an o, say a.

That’s island.

 

One word of Swedish has changed the whole neighborhood.

When I look up, the yellow house on the corner

is a galleon stranded in flowers. Around it

 

the wind. Even the high roar of a leaf-mulcher

could be the horn-blast from a ship

as it skirts the misted shoals.

 

We don’t need much more to keep things going.

Families complete themselves

and refuse to budge from the present,

the present extends its glass forehead to sea

(backyard breezes, scattered cardinals)

and if, one evening, the house on the corner

took off over the marshland,

neither I nor my neighbor

would be amazed. Sometimes

 

a word is found so right it trembles

at the slightest explanation.

You start out with one thing, end

up with another, and nothing’s

like it used to be, not even the future.

 

A carroça de feno

(John Constable: pintor inglês)

 

Ö

 

Molde os lábios em ‘o’, diga ‘a’.

Isso é uma ilha.

 

Uma palavra em sueco alterou toda a vizinhança.

Quando olho para cima, a casa amarela na esquina

é um galeão encalhado em flores. Ao seu redor,

 

o vento. Até mesmo o rugido alto de um triturador de folhas

poderia ser o som da buzina de um navio

enquanto contorna baixios enevoados.

 

Não precisamos de muito mais para manter as coisas

funcionando.

As famílias se completam

e se recusam a ceder do presente,

o presente a estender a sua fronte de vidro até o mar

(brisas do quintal, cardeais dispersos)

e se, numa noite, a casa da esquina

descolasse sobre o pântano,

nem eu nem meu vizinho

ficaríamos surpresos. Às vezes,

 

uma palavra é julgada tão correta que estremece

à menor explicação.

Começa-se com uma coisa, termina-se

com outra, e nada é

como costumava ser, nem mesmo o futuro.

 

Referência:

 

DOVE, Rita. Ö. In: ASTLEY, Neil (Ed.). Staying alive: real poems for unreal times. 1st. ed. New York, NY: Miramax Books, 2003. p. 448-449.

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