Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 12 de julho de 2022

Joan Brossa - O Tempo

O poeta demarca o tempo entre o passado e o futuro pela quantidade de linhas que já terá lido de um poema: se já as leu, pertencem ao passado; se ainda as lerá, ao futuro, fora do campo de percepção do leitor, seu discernimento, seu escrutínio. De resto, o verso no instante mesmo da leitura seria o marco do tempo presente.

 

Tudo são palavras a ocupar espaço, quer sejam lidas quer não, à mercê do tempo, quer tenham força para perdurar quer facilmente erodidas e desvanecidas: a poesia esconde-se nos versos à espera de que possa ressoar, de que seja capaz de reverberar na mente do leitor outros sentidos da existência, no mais ostensivo presente, tal como o entrevia Agostinho de Hipona – no presente do presente, no presente do futuro, no presente do passado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Joan Brossa

(1919-1998)

 

El Temps

 

Aquest vers és el present.

 

El vers que heu llegit ja és el passat

– ja ha quedat enrera després de la lectura –.

La resta del poema és el futur,

que existeix fora de la vostra

percepció.

 

Els mots

són aquí, tant si els llegiu

com no. I cap poder terrestre

no ho pot modificar.

 

Tempo

(Shaista Momin: artista paquistanesa)

 

O Tempo

 

Este verso é o presente.

 

O verso que li já é o passado

– já ficou para trás depois da leitura –.

O resto do poema é o futuro,

que existe fora da sua

percepção.

 

As palavras

estão aqui, quer você as leia,

quer não. E nenhum poder terrestre

pode mudar isto.

 

Referência:

 

BROSSA, Joan. El temps / O tempo. Tradução de Ronald Polito. Cacto: poesia & crítica, São Paulo (SP), n. 1, p. 86-87, ago. 2002. Em catalão: p. 86; em português: p. 87.

Nenhum comentário:

Postar um comentário