Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Jorge Wanderley - Que coisa tão literária

Em versos de dicção metaliterária, o tradutor e poeta pernambucano, a partir de um mesmo fio condutor associado à cegueira – em Joyce (monocular, no caso), em Borges e em Homero –, bem assim ao despertar dos outros sentidos que tal privação fomenta, cria instigantes conexões com as suas criações artísticas.

 

Notam-se alusões a Ulisses (e ao seu cão Argos) – personagem da Odisseia de Homero e título da obra máxima de Joyce –; ao conto “Os Mortos” do autor irlandês, contido na coletânea “Dublinenses” (1914); e, retornando a Argos, a explícita menção à narrativa “O Imortal”, inserta no tomo “O Aleph” (1949), do argentino Jorge Luis Borges.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge Wanderley

(1938-1999)

 

Que coisa tão literária

 

Falar de Ulisses deixa as pessoas cegas.

Joyce, pelo menos, a gente vê

num restaurante austríaco, almoçando

com a família entre valsas e dramas,

e tal.

Mas Homero, esse a gente não sabe se

ele era a versão de Borges

ou aquele busto que poderia ser de Sócrates.

O grego, portanto, leva a uma cegueira ainda maior

que a da estátua, olho opaco fechado no aberto.

 

Falar de Joyce deixa as pessoas Ulisses

e os cegos pelo menos têm um olho

polifêmico e vulnerável

que nos mira antes de almoçarmos

para então chorarmos nossos mortos.

 

Borges também deixa todo mundo

cego e grego:

O Imortal e seu cão Argos e tudo. São

protonautas do táctil, do auditivo,

do sensitivo mar no olhar enxuto?

 

Falar de Homero deixa as pessoas

Joyces e Borges

deitadas no mesmo verde do cego.

Há aquilo que veem para dentro, é certo,

assim:

o olho opaco fechado no aberto

chora seus mortos com Argos e tudo

e o sensitivo mar

do olhar enxuto

assim se encerra assim.

 

Evgeny Chirikov em sua mesa de trabalho

(Ivan S. Kulikov: pintor russo)

 

Referência:

 

WANDERLEY, Jorge. Que coisa tão literária. In: __________. Antologia poética. Organização de Márcia Wanderley. Prefácio de João Alexandre Barbosa. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2001. p. 115-116.

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