Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 17 de julho de 2022

Nuno Júdice - Arte poética com melancolia

Manejando palavras entre o lírico e o filosófico, entre o conceitual e o discursivo, o poeta lusitano nos apresenta este belo poema sobre a “ars poetica”, interessantemente com a mesma inflexão sobre a questão da passagem do tempo em que se deteve o poeta catalão Joan Brossa, nesta postagem de alguns dias atrás, muito embora com imagética bem mais refinada.

 

O lado melancólico a que se refere o título fica por conta das preocupações e dos medos da voz poética com o já transcorrido – pertencente, por conseguinte, à memória –, memória essa que, em todo o caso, serve-lhe de matéria-prima por conter grande parte do conteúdo de seus próprios sonhos, objetos de lembrança evocadas, com aptidão para outorgar dinâmica ao que, por ora, já se encontra inerte.

 

J.A.R. – H.C.

 

Nuno Júdice

(n. 1949)

 

Arte poética om melancolia

 

Preocupam-me ainda as coisas do passado. Escrevo

como se o poema fosse uma realidade, ou dele nascessem

as folhas da vida, com o verde esplêndido de uma súbita

primavera. Sobreponho ao mundo a linguagem; tiro

palavras de dentro do que penso e do que faço, como

se elas pudessem viver aí, peixes verbais no

aquário do ser. É verdade que as palavras não nascem

da terra, nem trazem consigo o peso da matéria;

quando muito, descem ao nível dos sentimentos, bebem

o mesmo sangue com que se faz viver as emoções,

e servem de alimento a outros que as leem como se, nelas,

estivesse toda a verdade do mundo. Vejo-as caírem-me

das mãos como areia; tento apanhar esses restos de tempo,

de vida que se perdeu numa esquina de quem fomos; e

vou atrás deles, entrando nesse charco de fundos movediços

a que se dá o nome de memória. Será isso a poesia? É

então que surges: o teu corpo, que se confunde com o das

palavras que te descrevem, hesita numa das entradas

do verso. Puxo-te para o átrio da estrofe; digo o teu nome

com a voz baixa do medo; e apenas ouço o vento que empurra

portas e janelas, sílabas e frases, por entre as imagens

inúteis que me separaram de ti.

 

Um momento pensativo

(Josep Tapiró i Baró: pintor espanhol)

 

Referência:

 

JÚDICE, Nuno. Arte poética com melancolia. In: REIS-SÁ, Jorge; LAGE, Rui (Selecção, organização, introdução e notas). Poemas portugueses: antologia da poesia portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI. Prefácio de Vasco Graça Moura. 1. ed. Porto, PT: Porto Editora, 2009. p. 1934.

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