Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 10 de julho de 2022

Pamela Gillilan - Quatro Anos

Passados quatro anos de um relacionamento que findou com o passamento do companheiro da falante, mesmo que esta tenha se desfeito de tudo que a levasse a memorar o já distante consorte, resta-lhe a impressão de que sempre há algo dele suspenso nos interstícios de sua residência, até mesmo no pó que se encosta à mobília, levando-a a crer que, ocasionalmente, está a tocar vestígios de sua pele.

 

Não resta suficientemente exato se, no interno da voz lírica, há um sentimento de gratidão ou de reconhecimento em relação ao transcorrido convívio matrimonial, muito embora o fluxo das linhas do poema firme a hipótese, aqui como ali, de haver uma necessidade premente de se suprimir qualquer elemento que a lembre da relação havida.

 

Ou por outra: os versos sugerem haver indícios da presença do falecido, primeiramente, na mente da falante, os quais acabam por se converter nessa quase obsessão em sua manifestação física.

 

J.A.R. – H.C.

 

Pamela Gillilan

(1918-2001)

 

Four Years

 

The smell of him went soon

from all his shirts.

I sent them for jumble,

and the sweaters and suits.

The shoes

held more of him; he was printed

into his shoes. I did not burn

or throw or give them away.

Time has denatured them now.

Nothing left.

There will never be

a hair of his in a comb.

But I want to believe

that in the shifting housedust

minute presences still drift:

an eyelash,

a hard crescent cut from a fingernail,

that sometimes

between the folds of a curtain

or the covers of a book

I touch

a flake of his skin.

 

Depois do baile de máscaras

(Greg Olsen: artista norte-americano)

 

Quatro Anos

 

O cheiro dele logo desapareceu

de todas as suas camisas.

Lancei-as num emaranhado,

e os suéteres e ternos.

Os calçados

o retiveram mais: ele ficou gravado

em seus sapatos. Não os queimei,

nem os atirei fora ou os doei.

O tempo agora os desnaturou.

Não restou nada.

Nunca haverá sequer

um cabelo seu num pente.

Porém quero crer

que no cambiante pó da casa

ainda há presenças diminutas à deriva:

uma pestana,

uma rija meia-lua cortada a uma unha da mão,

a ponto de, às vezes,

entre as dobras de uma cortina

ou as capas de um livro,

eu tocar

numa lâmina de sua pele.

 

Referência:

 

GILLILAN, Pamela. Four years. In: ASTLEY, Neil (Ed.). Staying alive: real poems for unreal times. 1st. ed. New York, NY: Miramax Books, 2003. p. 387-388.

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