Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 15 de janeiro de 2022

Eduardo Alves da Costa - Uma estrela, vista através de periscópio

O ente lírico, muito bem aparatado em seu traje típico de executivo, “feito sardinha em lata”, vê-se como um “cavador” no mundo da burocracia e dos interesses corporativos, marinheiro a singrar o mar ondulante do dinheiro, quase sem ensejos para expor-se a brisas descortinadoras de outras possibilidades, germinadoras de horizontes onde fulgure o sinal de uma estrela cadente, “brasa do pensamento transfigurada em quimera”.

Assumindo a forma de “cronópio” – a julgar pelas imaginosas descrições de Cortázar, lídimo representante da espécie humana antissocial ou, por outra, daqueles um tanto afastados da vida cotidiana, a exemplo dos poetas –, aspira o falante pelo universo da poesia a jorrar como um arco-íris difuso do firmamento, para arejar a vida desse “jumento” tão preso à terra, ou melhor, fazer-lhe pulsar o coração, despertando-lhe insuspeitadas emoções – mesmo que, a distância e sob a lente do periscópio soerguido à alma, a estrela vislumbrada possa parecer uma “pedra fria, suspensa no espaço, entre milhões de solidões”.

J.A.R. – H.C.

 

Eduardo Alves da Costa

(n. 1936)

 

Uma estrela, vista através de periscópio

 

Aqui estou, de gravata,

passadinho a ferro,

feito sardinha em lata

ao molho de burocrata.

Sem horizonte nem brisa,

enforcado na camisa,

olhar perdido, estupor.

Um poeta-cavador,

metido fundo na lata

do desamor-bolor.

 

Soergo meu periscópio

que, da alma, espia o mundo;

cronópio e marinheiro,

varo as ondas do dinheiro,

singro o mar da servidão.

Mas resisto no que me sinto:

homem atento, jumento

de pés cravados no chão;

à espera do momento

em que a brasa do pensamento

se transfigure em quimera

e fulgure no firmamento.

 

Uma estrela.

Mas, o que é uma estrela?

Pura emoção de quem,

ao vê-la, sente que pulsa

o coração? Ou pedra fria,

suspensa no espaço,

entre milhões de solidões?

 

Cadente que sou, perdido,

na vastidão espantosa

do marasmo nacional,

vejo na estrela um sinal:

um gesto de Deus no céu

– como quem tira do chapéu

um arco-íris noturno.

 

Periscópio

(Galen Cheney: pintora norte-americana)


Referência:

COSTA, Eduardo Alves da. Uma estrela, vista através de periscópio. In: __________. No caminho, com Maiakóvski. 1. ed. São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1988. p. 123-124.

Nenhum comentário:

Postar um comentário