Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 30 de outubro de 2021

Salvatore Quasimodo - Os Retornos

Experimentando um estado de relaxamento na Piazza Navona, em Roma, o poeta lembra-se de regiões contíguas ao rio Platani, sul da Itália, não muito longe da cidade onde o próprio Quasimodo nascera, nomeadamente Módica, na Sicília: é o tempo de menino que a memória lhe evoca, quando viva ainda era a sua mãe e deliciava-se com a natureza daquelas agrestes paragens.

Percebe-se na elocução do poeta que, apenas naquele sítio de paz, ele consegue apreender alguma serenidade e, porque não, felicidade – não exatamente onde agora se encontra, como que exilado e dedicado a uma vida exaustiva de trabalho –, daí porque empreende “retornos” ao passado, com o objetivo, quem sabe, de alcançar clareza sobre as urgências a que agora está exposto.

Uma pequena e derradeira observação: no segundo verso da primeira estrofe do poema, lê-se “supino” no original, ou seja, em decúbito dorsal – peito para cima –, com as mãos a sustentar a cabeça por baixo da nuca, como se o poeta estivesse contemplando a quietude do céu. Mas a palavra foi vertida a “bruços” no português, decúbito ventral – peito para baixo.

J.A.R. – H.C.

 

Salvatore Quasimodo

(1901-1968)

 

I Ritorni

 

Piazza Navona, a notte, sui sedili

stavo supino in cerca della quiete,

e gli occhi con rette e volute di spirali

univano le stelle,

le stesse che seguivo da bambino

disteso sui ciotoli del Platani

sillabando al buio le preghiere.

 

Sotto il capo incrociavo le mie mani

e ricordavo i ritorni:

odore di frutta che secca sui graticci,

di violaciocca, di zenzero, di spigo;

quando pensavo di leggerti, ma piano,

(io e te, mamma, in un angolo in penombra)

la parabola del prodigo,

che mi seguiva sempre nei silenzi

come un ritmo che s’apra ad ogni passo

senza volerlo.

 

Ma ai morti non è dato di tornare,

e non c’è tempo nemmeno per la madre

quando chiama la strada,

e ripartivo, chiuso nella notte

come uno che tema all’alba di restare.

 

E la strada mi dava le canzoni,

che sanno di grano che gonfia nelle spighe,

del fiore che imbianca gli uliveti

tra l’azzurro del lino e le giunchiglie;

risonanze nei vortici di polvere,

cantilene d’uomini e cigolio di traini

con le lanterne che oscillano sparute

ed hanno appena il chiaro di una lucciola.

 

In: “Acque e Terre” (1920-1929)

 

Vista da Piazza Navona - Roma

(Hendrik Frans van Lint: pintor flamengo)

 

Os Retornos

 

Praça Navona, de noite, no banco

eu estava de bruços em procura do silêncio,

e os olhos com traços e espirais

uniam as estrelas,

as mesmas que eu seguia quando menino

deitado nas pedras do Platani

silabando no escuro as orações.

 

Na nuca cruzava as minhas mãos

e recordava os retornos:

odor de fruta que seca nos caniços,

de cachos de violetas, de gengibres, de alfazemas,

quando pensava em ler para ti, devagar,

(eu e tu, mamãe, em um ângulo de penumbra)

a parábola do pródigo,

que me seguia sempre nos silêncios

como um ritmo que se abre a cada passo

sem querer.

 

Mas aos mortos não é permitido retomar,

e não existe tempo nem mesmo para a mãe

quando a estrada chama;

e eu tornava a partir, fechado na noite

como um que tema de ficar ao amanhecer.

 

E a estrada me dava as canções

que sabem de grão que se robustece nas espigas,

de flor que empalidece os olivais

entre o azul do linho e os junquilhos;

ressonâncias nos vórtices de pó,

cantilenas de homens e chiados de trenós

com as lanternas que oscilam desmaiadas

e têm apenas a luz do vagalume.

 

Em: “Águas e Terras” (1920-1929)


Referências:

Em Italiano

QUASIMODO, Salvatore. I ritorni. In: __________. Poesie e discorsi sulla poesia. A cura di Gilberto Finzi. 14. ed. Milano, IT: Mondadori, 2005. p. 31.

Em Português

QUASIMODO, Salvatore. Os retornos. In: __________. Poesias escolhidas. Tradução de Sílvio Castro. Rio de Janeiro, RJ: Opera Mundi, 1971. p. 61-62. (Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura patrocinada pela Academia Sueca e pela Fundação Nobel; Prêmio de 1959: Salvatore Quasimodo, Itália)

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