Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 15 de agosto de 2021

Leandro Tocantins - O Alfange do Galo

O poeta paraense dedica este poema a Carlos Drummond de Andrade, o vate itabirano que, tal como a sua cidade natal, deparou com uma lavra preciosa, mas não uma lavra de ferro – como a do agora pulverizado Pico do Cauê –, senão com a lavra da poesia – e é a esta que Tocantins oferece as suas próprias translações metafóricas, suas imagéticas alegorias.

A poesia seria como o grito cortante do galo a romper a madrugada, notificando-nos de que a sua seta sempre perpassa um mundo novidadeiro, de epifanias e de enleios extáticos, ou mesmo de paisagens doridas: forma, som e cor são excisados de sua mina para compor um texto com potencial para nos fazer migrar ao domínio “telepático” dos sentidos.

J.A.R. – H.C.

 

Leandro Tocantins

(1919-2004)

 

O Alfange do Galo

 

A Carlos Drummond de Andrade

 

A poesia não cansa

não há suor em seu pouso rotativo

nem lavras exauridas na mina

do sonho enquanto vibre a forma

o som percute, a cor reflita

no telepático dos sentidos.

A poesia confisca espaço

pulverizado de estreias

é ser, é participar

na móbil e essencial passagem.

A poesia, latente no abstrato

desperta sempre com o alfange do galo

fino desenho de seta

no rosto da núbia madrugada.

A poesia recorre ao motivo da rosa

róseoencanto de todos os caminhos

húmus abolido do espinho

sonatina em pastoreio

improviso de vento.

No suco humano poderoso gesto

instantâneo e sem fadiga.

 

Lisboa, 30-7-1971

 

Cantando ao Amanhecer

(Joan Mace: pintora norte-americana)


Referência:

TOCANTINS, Leandro. O alfange do galo. In: __________. A memória de viver. Lisboa, PT: Centro do Livro Brasileiro; Rio de Janeiro, GB: Artenova, jan. 1972. p. 48.

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