Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Arthur Rimbaud - No Cabaré Verde

Este poema foi escrito por Rimbaud em uma de suas escapadas à rígida disciplina de sua mãe, no caso, à Bélgica, em meados de outubro de 1870, quando, de fato, adentrou uma pousada de caminhoneiros – transmutada a um cabaré no provocativo soneto em questão – e lá teve contato com uma opulenta garçonete flamenga.

Os fatos se passam sob a paleta decadente de um ambiente qualificável como ‘kitsch’:  fachada e móveis verdes, o “colorido” dos pratos e os temas primitivos da tapeçaria. A despeito disso, nota-se, no discurso do falante, certo embevecimento pelas circunstâncias “boêmias”, mesclado a um despertar de excitantes desejos carnais.

J.A.R. – H.C.

 

Arthur Rimbaud

(1854-1891)

 

Au Cabaret-Vert

cinq heures du soir

 

Depuis huit jours, j’avais déchiré mes bottines

Aux cailloux des chemins. J’entrais à Charleroi.

– Au Cabaret-Vert: je demandai des tartines

De beurre et du jambon qui fût à moitié froid.

 

Bienheureux, j’allongeai les jambes sous la table

Verte: je contemplai les sujets très naïfs

De la tapisserie. – Et ce fut adorable,

Quand la fille aux tétons énormes, aux yeux vifs,

 

– Celle-là, ce n’est pas un baiser qui l’épeure! –

Rieuse, m’apporta des tartines de beurre,

Du jambon tiède, dans un plat colorié,

 

Du jambon rose et blanc parfumé d’une gousse

D’ail, – et m’emplit la chope immense, avec sa mousse

Que dorait un rayon de soleil arriéré.

 

Octobre 1870

 

No Cabaré Verde

(Antonio Possenti: pintor italiano)

 

No Cabaré Verde

às cinco da tarde

 

Oito dias de estrada, as botas esfoladas

De tanto caminhar. Em Charleroi, desvio:

– Entro no Cabaré Verde: peço torradas

Na manteiga e presunto; que não seja frio.

 

Despreocupado estiro as pernas sob a mesa

Verde e me esqueço a olhar os temas primitivos

Sobre a tapeçaria. – Adorável surpresa,

A garota de enormes tetas, olhos vivos,

 

– Essa, não há de ser um beijo que a afugente! –

Rindo, vem me trazer o meu pedido numa

Bandeja multicor: pão com presunto quente,

 

Presunto rosa e branco aromado de um dente

De alho, e o chope bem gelado, boa espuma,

Que uma réstea de sol doura tardiamente.

 

Outubro 1870


Referência:

RIMBAUD, Arthur. Au cabaret-vert / No cabaré verde. Tradução de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto de (Seleção e Tradução). Rimbaud livre. Introdução e traduções de Augusto de Campos, com “iluminações” computadorizadas de Augusto de Campos & Arnaldo Antunes. 2. ed. 1. reimp. São Paulo, SP: Perspectiva, 2002. Em francês: p. 26; em português: p. 27. (Coleção ‘Signos’)

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