Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Anna Akhmátova - A mulher de Lot

Neste pequeno poema do ciclo “Versos Bíblicos” tem-se a heroína vivenciando um grande choque: ela é forçada a deixar a sua cidade natal − Sodoma – às pressas e para sempre, acompanhando o esposo, a seguir obedientemente as ordens de superiores potestades, formuladas por um anjo, em especial, a de que dali partissem sem olhar para trás!

Ao voltar-se para contemplar em última vista aquilo que abandonara – traindo o seu desejo secreto pelo modo de vida ali praticado −, a esposa de Lot foi transformada numa estátua de sal: são os pensamentos e sentimentos dessa senhora que, especulativamente, são levados em consideração pela poetisa. Afinal, Akhmátova procura dar voz a quem, como ela, sofrera as dores, as humilhações e as objeções amiúde infligidas às mulheres, numa sociedade que, ainda hoje e em muitos lugares, nega-lhes protagonismo no plano social, econômico e político.

J.A.R. – H.C.

 

Anna Akhmátova

(1889-1966)

 

Лотова жена

 

Жена же Лотова оглянулась позади

его и стала соляным столпом.

Книга Бытия

 

И праведник шел за посланником Бога,

Огромный и светлый, по черной горе.

Но громко жене говорила тревога:

Не поздно, ты можешь еще посмотреть

На красные башни родного Содома,

На площадь, где пела, на двор, где пряла,

На окна пустые высокого дома,

Где милому мужу детей родила.

Взглянула − и, скованы смертною болью,

Глаза ее больше смотреть не могли;

И сделалось тело прозрачною солью,

И быстрые ноги к земле приросли.

 

Кто женщину эту оплакивать будет?

Не меньшей ли мнится она из утрат?

Лишь сердце мое никогда не забудет

Отдавшую жизнь за единственный взгляд.

 

24/2/1924

 

A mulher de Lot

(Ann Brockman: pintora norte-americana)

 

A mulher de Lot

 

A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás

e transformou-se numa estátua de sal.

Gênesis

 

E o homem justo seguiu o enviado de Deus,

alto e brilhante, pelas negras montanhas.

Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:

“Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar

 

as rubras torres da tua Sodoma natal,

a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,

as janelas vazias da casa elevada

onde deste filhos ao homem bem-amado”.

 

Ela olhou e − paralisada pela dor mortal −,

seus olhos nada mais puderam ver.

E converte-se o corpo em transparente sal

e os ágeis pés no chão se enraizaram.

 

Quem há de chorar por essa mulher?

Não é insignificante demais para que a lamentem?

E, no entanto, meu coração nunca esquecerá

quem deu a própria vida por um único olhar.

 

24/2/1924


Referências:

Em Russo

АХМАТОВА, Анна. Лотова жена. Disponível neste endereço. Acesso em: 11 nov. 2020.

Em Português

AKHMÁTOVA, Anna. A mulher de Lot. Tradução de Lauro Machado Coelho. In: In: __________. Antologia poética. Seleção, tradução do russo, apresentação e notas de Lauro Machado Coelho. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014. p. 81-82. (Coleção L&PM Pocket; v. 751)

❁

Um comentário:

  1. Sendo este o blog do Hans Castorp, ouso a remessa do poema Sanatório nas Nuvens:

    Acima da linha do mar
    Mais de mil e seiscentos metros
    Há um bom lugar para morrer

    Um lugar belo e ainda assim
    Sinistro, com salões iluminados
    E saudade dos bailes antigos

    Um lugar para maquiar o medo
    Que atravessa os sentidos
    Do doente e de seus entes queridos

    O lugar que nem sempre parece
    O que realmente é: um convite
    Para morrer - mas em alto estilo

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